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APRESENTAÇÃO

 

Este sítio é uma homenagem ao jornalista Luiz Eduardo Merlino, assassinado pela ditadura militar em 19 de julho de 1971. Nele colocaremos uma série de textos não apenas sobre a sua morte, mas também sobre a sua curta vida, voltada para o ideal de mudar o Brasil, de eliminar as desigualdades sociais que existem há 500 anos e as injustiças que se abatem sobre os excluídos. Parte da geração à qual ele pertenceu, sensibilizada pelas lutas na América Latina, pela morte de Che Guevara e pela Guerra do Vietnã, dedicou-se de corpo e alma à essa luta. Muitos, como ele, pereceram. Muitos sobreviveram e continuam lutando em outras condições.

Ele deu sua vida por esse ideal e é lícito julgar que, se hoje ele fosse vivo, estaria ainda lutando contra essas desigualdades e injustiças, estaria aberto para ver e sentir o pulso dolorido de nossa vida social, “uns com tanto, outros tantos com algum, mas a maioria sem nenhum”.  E estaria atento à chaga social que constitui a violência policial, que atinge principalmente os mais pobres e demunidos.

A violência no Brasil de hoje atinge a toda a sociedade. A sua causa principal é a desigualdade social que, com a globalização e o neoliberalismo, apenas se exacerbou. Desigualdade que deve ser entendida não apenas como a existência de uma grande maioria de pobres, mas sobretudo de uma minoria milionária exibindo ostensivamente sua riqueza, sem pudor, na televisão e na publicidade, como se o mar de excluídos não lhe dissesse respeito, quase como se houvesse, no território da nação, duas etnias isoladas.

Os jovens pobres que se enredam nas malhas da criminalidade, em geral através do tráfico de drogas, muitas vezes a única oportunidade de “trabalho” para eles, são rapidamente “formados” em ferocidade, quando levados para as FEBEMs. Lá são humilhados e torturados de modo a saírem com a crueldade impressa em suas mentes. A elite, através das instituições governamentais e judiciárias, bem como através de sensacionalistas programas de televisão e rádio, reclama contra esses desviados mais repressão. Incapaz que assegurar um Estado Social na era do neoliberalismo, a elite investe no Estado Penal: mais prisões e dependências para internação de adolescentes, mais reclusão com violência, regimes prisionais mais desumanos, aumento das penas, suspensão de direitos dos presos e internos. E as polícias, nos bairros periféricos de gente pobre, agem como capatazes negreiros: abordam desrespeitosamente os jovens, provocam-nos, humilham-nos, quando não prendem, matam e desaparecem com o corpo. Nem os parentes dos internos e dos presos escapam ao desrespeito que atinge todo pobre.

Nunca é demais lembrar do caráter de classe da repressão atual. A violência policial, as torturas, as mortes e os desaparecimentos de que foram vítimas a geração de Luiz Eduardo Merlino, atinge hoje apenas os filhos da pobreza. Os pobres das periferias das grandes cidades são, para as polícias, suspeitos em princípio, por serem pobres. É a criminalização da pobreza. Para os criminosos de colarinho branco, autores de grandes golpes contra o erário público, para os autores de crimes passionais nas grandes famílias, há o respeito da lei: não há tortura e nem execuções sumárias.

Diante da crueldade de muitos crimes praticados pelos pobres e submersos pela opinião pública da elite, amplos setores de esquerda simplesmente ignoram o problema da violência policial contra os marginalizados e desorganizados das periferias das grandes cidades. Defender os direitos humanos de um criminoso violento lhes parece um contra-senso e, como não podem aprovar as condutas policiais, omitem-se e ignoram o problema. Só por ocasião de uma grande chacina, dessas que varam o noticiário internacional, acordam para o problema, para depois novamente esconderem-no debaixo do tapete. Mas as chacinas são justamente o ápice de um lento processo de humilhação e maus tratos das populações que habitam as periferias de baixa renda, de um desrespeito contínuo aos seus direitos civis de cidadão, nesta dita república democrática, onde o acesso somente é permitido para “sócios”.

Este sítio quer ser um lugar de registro dessas violações dos direitos humanos cometidas por policiais e agentes do Estado contra os pobres de São Paulo. Quer, com o tempo, se constituir um espaço de memória desses anônimos torturados e mortos na tragédia social cotidiana. Quer estabelecer uma continuidade entre a luta pelo esclarecimento das torturas, mortes e desaparecimentos do período da ditadura militar com a luta intransigente contra as sistemáticas pelas violações que continuam a acontecer hoje.

Julho de 2005

 

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