POLOP-POC

Uma matriz das esquerdas

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   A Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (ORM-Polop) foi uma das matrizes da esquerda revolucionária brasileira, tendo sido o primeiro agrupamento a se organizar como opção partidária ao PCB (excetuando-se as organizações trotskistas), em fevereiro de 1961, "reunindo círculos de estudantes provenientes da 'Mocidade Trabalhista' de Minas Gerais, da 'Liga Socialista' de São Paulo (simpatizantes de Rosa de Luxemburgo), alguns trotskistas e dissidentes do PCB do Rio, São Paulo e Minas", conforme informações do Brasil: Nunca Mais. Da antiga Polop, surgiram direta ou indiretamente as seguintes organizações: Colina, VPR, POC, VAR-Palmares, OCML-PO, MCR e MEP.

   Os autores deste livro, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, foram militantes da ORM-Polop, posteriormente do POC e estavam entre os fundadores da OCML-PO, a nova Polop, após o rompimento com o POC, que decidira partir para a luta armada imediata em 1970.

   Sete militantes ligados ao POC foram mortos pela repressão política no Brasil e no exterior. Um foi assassinado em São Paulo, em 1971, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, dois no Rio Grande do Sul (Helio Zanir Sanchotene Trindade e Ary Abreu Lima e Rosa) e quatro outros foram mortos no exílio: Luiz Carlos Almeida e Nelson Kohl, no Chile, durante o golpe militar que derrubou o governo do presidente Salvador Allende, em 13 de setembro de 1973; e Jorge Alberto Basso e Maria Regina Marcondes Pinto (ligada na época ao MIR do Chile), na Argentina, em 1976.

   A história da Polop está contada da seguinte forma no Brasil: Nunca Mais: "Desde o seu surgimento, a Polop deu mais importância ao debate teórico e doutrinário dentro da esquerda marxista do que a um projeto de construir uma alternativa política ao PCB. Não chegou, dessa forma, a se constituir em uma organização nacional, embora tenha alcançado certo prestígio nos meios universitários dos três Estados já referidos e atraído para sua esfera de simpatia, ainda antes de 1964, militares ligados às mobilizações nacionalistas nas Armas.
Com permanente críticas às posições defendidas pelo PCB, a Polop recusava as opiniões daquele partido sobre a necessidade de uma aliança com a 'burguesia nacional' para vencer o 'imperialismo' e os 'restos feudais'. Elaborou, em contraposição, um 'Programa Socialista para o Brasil', no qual afirmava que o grau de evolução do capitalismo no país comportava e exigia transformações socialistas imediatas, sem qualquer etapa 'nacional-democrática'.

   Após a derrubada de Goulart, a Polop ensaiou a definição de uma estratégia guerrilheira para enfrentar o novo regime, chegando a se envolver em duas articulações para a deflagração de um movimento armado, em aliança com os referidos militares vinculados ao 'nacionalismo revolucionário'. Ambas as articulações foram abortadas no nascedouro. A primeira ocorreu ainda em 1964, no Rio, ficando registrada com o irônico título de Guerrilha de Copacabana. A segunda, de maior expressão, em 1967, liderada por aqueles militares vinculados ao embrionário MNR, passou à história com o nome impreciso de Guerrilha de Caparaó.

   Em 1967, a Polop viveu em suas fileiras um impacto semelhante ao ocorrido no interior do PCB, por influência da luta guerrilheira que se alastrava pela América Latina sob a inspiração da Revolução Cubana e do guevarismo. Esse impacto acarretou duas importantes cisões. Em Minas, a maior parte dos militantes se desligou da Polop para constituir o Colina. Em São Paulo, uma 'ala esquerda' da organização se uniu a militantes remanescentes do MNR para constituir a VPR".

   Posteriormente, em meados de 1969, remanescentes da VPR e do Colina, se uniriam para formar a VAR-Palmares.

  Continua o relato do BNM (Brasil Nunca Mais): "Após as cisões que geraram a VPR e o Colina, essa organização restou claramente debilitada. Reagiu a isso, aproximando-se da Dissidência Leninista do Rio Grande do Sul (do PCB) e de mais alguns círculos de militantes, para constituir o Partido Operário Comunista (POC). O POC conseguiu ter certa expressão no Movimento Estudantil de 1968, onde atuava sob a designação de Movimento Universidade Crítica. Suas propostas políticas assinalavam uma nítida continuidade da linha seguida anteriormente pela Polop. Procurou também estabelecer alguma presença junto do meio operário das capitais.

   Em abril de 1970, um grupo de militantes se desligou do POC para voltar a constituir a Polop. Os que permaneceram no POC passaram a enfrentar divergências internas profundas, sendo que alguns círculos defendiam a atuação conjunta com as organizações da guerrilha urbana (ALN, VPR, VAR, etc.), chegando a se envolver em operações armadas.

   Entre 1970 e 1971, o POC foi atingido por vários golpes da repressão, sofrendo prisões de dezenas e centenas de militantes, principalmente em São Paulo e Porto Alegre, o que acabou comprometendo as atividades da organização no país a partir daí, não obstante alguns setores terem permanecido articulados no exílio.
Em 1970, um diminuto grupo de militantes se desligou do POC, no Rio Grande do Sul, para criar o MCR, que executou algumas ações armadas conjuntas com a VPR.
  
   Os que se rearticularam em 1970 sob a sigla Polop, por sua vez, condenaram as ações armadas e concentraram seus pequenos efetivos em um trabalho doutrinário junto dos operários, rebatizando sua organização para Organização de Combate Marxista-Leninista - Política Operária (OCML-PO).
No exílio, a OCML-PO editou, durante certo tempo, em conjunto com a AP Socialista e o MR-8, a revista de debates teóricos Brasil Socialista.

   Antes de essa nova Polop (mais conhecida como PO) completar 1 ano de vida, começou a se constituir dentro de suas fileiras, no Rio, a Fração Bolchevique da Polop que, em 1976, mudaria seu nome para Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP).

   Na pesquisa BNM foram estudados cinco processos relacionados ao Polop, somando perto de cem cidadãos envolvidos como réus. Já o POC foi objeto de oito processos estudados, distribuídos por São Paulo, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul, reunindo mais de 200 pessoas atingidas como réus ou indiciados na fase de inquérito. O MEP foi detectado pelos órgãos de repressão em 1977, ocorrendo prisões e formando-se processos no Rio de Janeiro e em São Paulo".

Do livro:  Dos filhos deste solo - Mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado
Autores: Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio
São Paulo, Boitempo Editorial/Editora da Fundação Perseu Abramo, 1999, pp. 509-511.