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Pra não esquecer a ditadura
Fonte: Terra Magazine
28.03.2012


Kelly Cristina Spinelli*

De Buenos Aires

Era impressionante a quantidade de gente. Quem estivesse parado no centro da Praça de Maio, no último sábado, se veria cercado por uma multidão em qualquer direção que olhasse. Era 24 de março, Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça. O mesmo dia 24 de março em que, em 1976, deu-se o golpe militar que deu origem à sangrenta ditadura que esteve no poder na Argentina até 1983 e deixou um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos.

A data foi transformada em feriado há seis anos e tem sido levada a sério por gente de toda a idade que se junta para protestar e pedir justiça. Os argentinos, muitos ao lado de seus partidos políticos, saem às ruas aos milhares, entoam hinos em que dizem que não foram vencidos, que querem justiça, que não vão esquecer.

No último sábado, como tradicionalmente acontece, foram dois os momentos de marchas. O primeiro, mais cedo, formado por organizações independentes que criticam o governo de Cristina Kirchner. O segundo, mais tarde, alinhado à Casa Rosada.

Ao longo do dia, viu-se a entrada de grupos como as avós e as mães da Praça de Maio e a fundação H.I.J.O.S, todas organizações de direitos humanos que lutam pelo julgamento dos criminosos da ditadura. O Dia da Memória se converte em celebração pública do trabalho dessas organizações, que há muitos anos têm pressionado a sociedade a se retratar por seu passado, promovendo processos, incitando reportagens, restituindo filhos desaparecidos às suas verdadeiras famílias, apontando suspeitos.

E não é só o trabalho delas que fica evidente: há que se valorizar os jovens argentinos por sua força política. Ao longo dos anos, eles militaram em muitos escrachos (movimentos que apontavam publicamente os acusados que continuavam sem julgamento - os escrachos ocorreram também no Chile e Uruguai), entre outras ações que promoveram para chamar a atenção da opinião pública.

O cenário resultante é promissor: o país tem sido reconhecido por enfrentar o espectro da ditadura com firmeza, apesar das muitas dificuldades encontradas nesse caminho. Mais de 270 criminosos foram condenados (apesar de as organizações reclamarem que só 43 deles tiveram prisão efetiva) e até o final do ano contabilizava-se mais de 800 suspeitos ainda sendo processados.

Como a maior parte das condenações e julgamentos têm acontecido de 2008 pra cá, espera-se que esses números aumentem muitos mais. Por aqui, já se pede a prisão de civis que participaram ativamente de destacamentos do exército durante a ditadura, e no último sábado, falou-se em responsabilizar empresas que apoiaram economicamente o regime.

O Brasil, por sua vez, mal começou a engatinhar. A revista The Economist apontou recentemente a lentidão brasileira em julgar os crimes da ditadura em comparação a outros países sul-americanos. Há alguns dias noticiou-se, por sinal, que os militares das Forças Armadas, apesar da proibição da presidenta Dilma Rousseff, pretendem fazer festa para celebrar o golpe militar de 31 de março de 1964. O evento está marcado para quinta-feira, dia 29.

Ainda assim, no ano passado, foi aprovada a Comissão da Verdade, que agora espera que a presidenta nomeie seus integrantes para começar a funcionar. Deve investigar, no período de dois anos, crimes praticados no Brasil entre 1946 a 1988 que ferem direitos humanos. Há militares reagindo furiosos, apesar de a comissão não ter poder de levar acusados à prisão.

O jornal The New York Times criticou a Comissão da Verdade por ter valor simbólico, já que os apontados pelas investigações seguem protegidos pela Lei de Anistia, de 1979, que perdoou os criminosos políticos do Brasil. Mas ela é um primeiro passo, e será acompanhada por uma nova discussão sobre a revogação dessa lei. A causa está prevista para ser reaberta essa semana no Supremo Tribunal Federal.

Nos últimos dias, também vimos jovens brasileiros repetindo os escrachos dos países vizinhos e apontando publicamente os repressores brasileiros. E convocou-se um protesto para o mesmo dia da festa de comemoração do golpe militar, na frente do Clube Militar na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Não são manifestações do porte das que acontecem no Dia da Memória argentino, mas são indícios. Estará o país do futuro começando a olhar para seu passado?

* Kelly Cristina Spinelli/Terra Magazine - É jornalista. Escreveu para a Folha de S.Paulo, revista Piauí e publicações da Editora Trip. Mora em Buenos Aires, onde tenta entender os portenhos e aprender a desenhar.
kelly.spinelli@terra.com.br

 

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