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PMs da Rota são julgados por simular tiroteio que matou 2

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1004083-pms-da-rota-sao-julgados-por-simular-tiroteio-que-matou-2.shtml
09/11/2011

ANDRÉ CARAMANTE
DE SÃO PAULO

Réus em um processo no qual são acusados de simular um tiroteio para tentar justificar a morte de dois homens, quatro policiais militares que eram da Rota (espécie de tropa de elite da PM de SP) quando cometeram os crimes atribuídos a eles pelo Ministério Público Estadual serão julgados nesta quinta-feira (10), às 13h, no Tribunal do Júri de Guarulhos (Grande São Paulo).

Os réus são o oficial da PM (1º tenente) Francisco Carlos Laroca Júnior, 30, o cabo Renato Aparecido Russo, 36, e os soldados Alexandre de Lima Costa e Marco Antônio Pinheiro, ambos de 42 anos. Após a revelação do caso, os quatro foram afastados da Rota. Laroca Júnior foi transferido da Rota para o Corpo de Bombeiros; os outros três PMs estão agora em batalhões comuns da PM que atendem bairros da periferia da capital.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Estadual à Justiça, em 13 de maio de 2006, durante a primeira onda de ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), os PMs simularam um tiroteio para tentar justificar as mortes do presidiário Jefferson Morgado Britto, 31, e do ex-detento José Feliz Ramalho, 44.

Em seus depoimentos, todos os PMs disseram que, antes de atirar em Ramalho e Britto, foram alvo dos disparos dos dois, após perseguirem o carro (um Audi A4) onde o empresário Rui Rodrigues da Silva era mantido refém pelos dois.

O empresário Silva chegou a ser investigado sob a suspeita de ajudar os PMs da Rota a montar a farsa para encobrir a morte de Ramalho e Britto, mas não foi pronunciado para ir a júri.

Ramalho, segundo a investigação Corregedoria da PM, foi visto por um amigo quase duas horas antes do suposto tiroteio contra os PMs sendo colocado por um policial dentro do carro da corporação.

A principal suspeita contra os PMs e o empresário é a de que Ramalho e Britto foram presos em locais diferentes em São Paulo e, mais tarde, levados para Guarulhos, onde o empresário Silva, a pedido de amigos PMs, teria se passado por vítima de um sequestro relâmpago supostamente praticado pelas duas vítimas dos PMs.

Contradições

Pela versão dos PMs, os supostos criminosos teriam dado um "cavalo de pau" e começaram a atirar nos PMs quando estavam na rua Mogi das Cruzes, a mesma do 5º DP de Guarulhos. Ainda segundo os policiais, Britto usou uma metralhadora 9 mm, e Ramalho, que estaria ao volante do carro, uma pistola.

Mas a versão apresenta várias contradições, apontam as investigações. Apesar de estarem a pouco mais de três metros um do outro na hora do suposto tiroteio, nenhum dos dois carros --o Audi ou o carro nº 91304 da Rota foi atingido. Testes também apontaram que as armas supostamente encontradas com os dois mortos --que não tinham vestígios de pólvora nas mãos-- não haviam sido disparadas recentemente.

Mas a principal contradição apontada pela Corregedoria da PM e pelo Ministério Público é o fato de Ramalho, um ex-presidiário que havia cumprido pena por roubo, ter sido preso exatamente às 19h30 do mesmo dia 13-- quase duas horas antes do tiroteio relatado pelos policiais.

A prisão foi feita por policiais que estavam em um carro cinza, mesma cor dos usados pelo Batalhão de Choque da PM, no cruzamento da rua Ana Cintra com a avenida São João (centro de São Paulo), distante cerca de 45 km do local do suposto tiroteio.

A prisão de Ramalho foi presenciada por um amigo dele, E.A.D., 32, hoje a principal testemunha da ação dos PMs, mas que está desaparecido.

Outro lado

Nos depoimentos prestados à Polícia Civil e à Justiça Militar, os PMs Laroca Júnior, Russo, Costa e Pinheiro contaram sua versão sobre o crime: ficaram sabendo pelo rádio do sequestro contra o dono do Audi, encontraram o veículo, o perseguiram e, quando tentavam prender os criminosos, foram atacados por eles e, no revide, os mataram.

O empresário Silva disse, à época, que a versão dos policiais sobre o sequestro que sofrera é verdadeira e que nunca os acobertaria num crime. "Posso ter sido vítima justamente de quem achava que estava me protegendo. Nunca tinha visto esses PMs da Rota e não os ajudaria num crime. Também sou pai e não quero isso para o filho de ninguém."

A Corregedoria da PM informou, em 2006, que os quatro PMs foram presos durante dois dias, mas depois voltaram a trabalhar.

O advogado dos quatro PMs, Eliezer Pereira Martins, não foi localizado hoje pela Folha. Segundo a funcionária de seu escritório, ele está em viagem. A reportagem também o procurou por e-mail e por telefone celular.

Outras simulações

Ao menos 11 das 92 mortes (12%) de civis decorrentes de ocorrências classificadas como "resistência seguida de morte", entre os dias 12 e 19 de maio de 2006, são investigadas sob a suspeita de terem sido resultado de tiroteios forjados por policiais da Rota para justificar os homicídios.

As 11 mortes aconteceram no período mais crítico dos ataques da facção criminosa PCC contra as forças de segurança do Estado.

Além das mortes de Britto e Ramalho, em Guarulhos, no dia 13 de maio de 2006, também foram mortos pela Rota, no dia 15, Jardel Silva de Oliveira, 17, e Edson de Oliveira, 25.

Em Poá, a menos de cem metros de distância, em dias diferentes, Luiz Carvalho de Brito, 49, e um homem não identificado, e depois Paulo Rodrigues, 24, e outro não identificado.

Na rodovia Régis Bittencourt, em Itapecerica da Serra (todas cidades da Grande São Paulo), os policiais afirmam ter trocado tiros com Leandro Araújo Santos, 18, Deived Furtado de Araújo, 17, e Gilson Furtado de Araújo, 21.

Todos os casos têm coincidências: a) em quatro dos cinco casos, os PMs mataram duas pessoas numa suposta troca de tiros em que nenhum policial nem o carro da Rota foram atingidos; b) sempre uma das duas vítimas portava documento que comprovava que ele estava cumprindo pena em alguma penitenciária; c) o cabo Renato Aparecido Russo está envolvido em três das cinco supostas trocas de tiros, nos dias 13, 14 e 15 de maio; d) as 11 vítimas foram levadas para hospitais, mesmo tendo sido atingidas em regiões vitais, como peito e cabeça. Russo tem ligação com 6 dos 11 óbitos.

Em 2 dos 6 casos, Russo estava com o tenente Laroca Júnior e o soldado Marco Pinheiro.

O soldado Pinheiro disse à Corregedoria da PM, em novembro de 2006, ter sido atacado naquele mês, quando o prédio onde vive, em Osasco (Grande SP), foi invadido por homens que queriam se vingar dele pelas mortes.


PMs são absolvidos de simular tiroteio que matou 2 pessoas
Fonte:
Folha On-Line
11/11/2011

ANDRÉ CARAMANTE
DE SÃO PAULO

Por quatro votos a três, os policiais militares Francisco Carlos Laroca Júnior, 30, o cabo Renato Aparecido Russo, 36, e os soldados Alexandre de Lima Costa e Marco Antônio Pinheiro, ambos de 42 anos, foram absolvidos ontem da acusação de simular um tiroteio que matou dois homens, em maio de 2006, durante os ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) contra as forças de segurança do Estado.

O julgamento aconteceu durante todo o dia de ontem, no Tribunal do Júri de Guarulhos. À época dos mortes, os quatro PMs eram da Rota, espécie de tropa de elite da PM de São Paulo.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Estadual à Justiça, em 13 de maio de 2006, durante a primeira onda de ataques da facção criminosa PCC, os PMs simularam um tiroteio para tentar justificar as mortes do presidiário Jefferson Morgado Britto, 31, e do ex-detento José Feliz Ramalho, 44. Mas essa versão não foi aceita hoje pelos jurados.

Em seus depoimentos, todos os PMs disseram que, antes de atirar em Ramalho e Britto, foram alvo dos disparos dos dois, após perseguirem o carro (um Audi A4) onde o empresário Rui Rodrigues da Silva era mantido refém pelos dois.

O empresário Silva chegou a ser investigado sob a suspeita de ajudar os PMs da Rota a montar a farsa para encobrir a morte de Ramalho e Britto, mas não foi pronunciado para ir a júri.

Ramalho, segundo a investigação Corregedoria da PM, foi visto por um amigo quase duas horas antes do suposto tiroteio contra os PMs sendo colocado por um policial dentro do carro da corporação.

A principal suspeita contra os PMs e o empresário é a de que Ramalho e Britto foram presos em locais diferentes em São Paulo e, mais tarde, levados para Guarulhos, onde o empresário Silva, a pedido de amigos PMs, teria se passado por vítima de um sequestro relâmpago supostamente praticado pelas duas vítimas dos PMs.

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