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A  nova missão do Coronel Telhada
Fonte: Carta Maior http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19019
22.11.2011

Fábio Nassif

Após se despedir do comando da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), o coronel Paulo Lopes Lucianda Telhada Neto prepara seu ingresso na vida política. Segundo ele, recebeu convites do mundo empresarial, de meios de comunicação e de entrada na política. Na cerimônia de despedida, sugeriu que deve escolher a última opção, a ser anunciada nesta semana. "Somos instrumentos de Deus para mantermos a ordem e a paz", disse ao se despedir do comando. A reportagem é de Fábio Nassif.

O convite eletrônico anuncia: solenidade de entrega de láureas e de medalhas e despedida do comandante da ROTA. A segurança reforçada do antigo prédio amarelo na Avenida Tiradentes, em São Paulo, contrasta com o clima de celebração com que os presentes são recebidos. Passado o portal, é só buscar uma localização com boa visibilidade no meio dos civis, no pátio do Batalhão Tobias de Aguiar.

Veteranos que servem de apoio às suas coleções de medalhas, com boinas coloridas e bengalas. Jovens entusiasmados com máquinas fotográficas e celulares, prontos para cumprir a tarefa de registrar o momento. Mulheres, na sua maioria, acompanhantes da centena de militares homens prestes a serem homenageados.

No meio da complexa escala de autoridades, o palco elevado com vista privilegiada denuncia a presença de figuras públicas, parlamentares e empresários. A bandinha toca, a bandeira brasileira vai pra lá e pra cá, soldados da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana são anunciados, se posicionam, recebem mais medalhas e se retiram. A dispersão do público só termina com o anúncio do início da cerimônia de despedida do Coronel Telhada.

Os olhares o seguem até quando ele deixa de acompanhar o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, na cerimônia, para dar entrevista à TV Bandeirantes. “É pro Datena”, comenta em tom de obviedade um dos espectadores. “Conversei com o Telhada outro dia. Ele me disse que sofre uma pressão danada, de todos os lados”, sussurra outro, demonstrando intimidade e compaixão. Ali, não se via ninguém que não o admirasse. No mínimo.

Coronel Paulo Lopes Lucinda Telhada Neto tem uma história de mortes. Elas fazem parte da imagem que ele parece ter orgulho e prazer de alimentar. “O meu primeiro contato com o batalhão da Luz ocorreu em 1970, quando no noticiário da TV assisti um funeral que saía deste velho casarão amarelo, onde um caixão era colocado sobre um caminhão de bombeiros acompanhado por milhares de pessoas. Em minha mente ainda está perfeitamente gravado a imagem de um corneteiro da Polícia Militar executando o toque de silêncio em um cemitério. Na época, eu não sabia, mas eram imagens do funeral e do sepultamento do Capitão PM Alberto Mendes Júnior, herói da Polícia Militar que pertencia ao Batalhão da Luz”, disse.

Em outro momento voltou a falar do caso dizendo que Mendes Júnior “foi covardemente morto por um traidor da pátria, desertor do nosso valoroso exército brasileiro”, fazendo uma alusão a Carlos Lamarca, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que participava da luta armada contra a ditadura – o governo militar que, em nome da pátria, torturou e matou centenas de opositores.

Telhada ainda citou com emoção e orgulho algumas outras ocasiões, como a “Guerra do Paraguai, Guerra de Canudos, Revolução de 24, Revolução de 30, a epopeia da Revolução Constitucionalista de 32”, essa última com veteranos presentes na celebração, ao lado de ex-combatentes, “verdadeiros herois” da Segunda Guerra Mundial.

Se são essas as referências do passado da Polícia Militar e de Telhada, as atuais tinham ali sua expressão nos agradecimentos. O deputado federal Walter Ihoshi (PSD), o deputado estadual Major Olimpio (PDT) e o vereador Ushitaro Kamia (PSD) estavam presentes, mesmo sabendo que talvez não tenham tanta identidade com a polícia como Paulo Maluf (PP), que também passou por lá e deve ter repetido o slogan “ROTA na rua”, entre uma coxinha e outra.

A atração também foi agraciada por personalidades de outros ramos. Jairo Leal, presidente executivo da Editora Abril, e o jornalista Percival de Souza estavam na categoria dos meios de comunicação. Estava também Leonardo Placucci, reitor da UniSant’anna, universidade que irá receber evento sobre “liberdade de imprensa e o politicamente correto” na visão de militares.

E continuou o coronel, prestes a se aposentar por falta de opção, agradecendo às Forças Armadas pela atuação conjunta e pregando que a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar está “do lado da justiça e do bem”, “somos instrumentos de Deus para mantermos a ordem e a paz”, “tenham certeza que nós somos os mocinhos da história”, “nós somos os cumpridores da lei”, “nunca baixando a guarda para os indivíduos criminosos”. Nesta ótica, são os próprios policiais que transformam pessoas em suspeitos, suspeitos em bandidos e justiça em morte.

Ele carrega um discurso semelhante ao da época em que entrou para a corporação. Com apenas 17 anos, em 1979, fez o curso preparatório de formação de oficiais. Tornou-se aspirante em 1983, na cidade de Lorena. Veio para São Paulo no ano seguinte, onde trabalhou no patrulhamento tático móvel. Chegou no casarão amarelo das lembranças de sua infância em 1986, onde foi promovido por bravura em 1988. Saiu de lá em 1992. Nesta época já era conhecido pelas mortes que acumulava em ações policiais, por transferências recordes de batalhões e até prisões por descumprimento do regulamento interno. A listagem das ocorrências falaria menos sobre sua carreira do que fala o sentimento dos familiares de suas vítimas.

De volta à ROTA como comandante, se orgulha de outros números, que na sua concepção significam segurança. Número de prisões, recapturas de presos e revistas em carros. Adepto do combate ao crime como espetáculo, tratou de valorizar a simbologia da ROTA, regularizando sua logomarca nos carros, retomando nomes de soldados mortos, reformando o prédio do batalhão e escrevendo um livro sobre os 120 anos da ROTA, a ser lançado no dia 1º de dezembro.

Como demonstração de sua desenvoltura no palco, Telhada reservou um momento da leitura do discurso, para chamar um cidadão chamado Rui que teria sido resgatado de um sequestro por suas tropas. Segundo o coronel, isso tudo não seria possível sem Geraldo Alckmin e seu “grande amigo” Antonio Ferreira Pinto. O secretário foi o responsável por nomear Telhada ao novo cargo, revertendo o caminho natural de uma carreira decadente.

Sobre a decisão, Ferreira Pinto disse que, mesmo alertado do risco de trazer Telhada de volta à cena, ele “tinha plena noção” de que era uma cartada decisiva. “Um passo efetivo do que eu havia planejado quando assumi a SSP: reerguer a ROTA. Recolocá-la no lugar de onde nunca deveria ter saído: dentro da legalidade. Não olvidando que o confronto é uma opção dos marginais”, disse com voz firme. Segundo a assessoria da PM, os “bons” números se deram pelo reforço do policiamento nas periferias da capital.

As palavras positivas do representante do Governo do Estado de São Paulo à Telhada – o policial, disse ele, “brilhou com muita dignidade” – jorraram. “Sou o maior incentivador para que você ingresse na vida política, como forma de se ter mais um digno representante e defensor das causas da população paulistana”, disse Ferreira Pinto para o coronel de cabelos brancos.

Com um imenso sorriso, o coronel mostra a espada prateada que ganhou dos amigos militares e ouve um pequeno grupo entoar a repetição de seu sobrenome. Foi imediatamente cercado para tirar fotos, dar autógrafos e receber abraços. Cantou o hino da Polícia Militar ao lado dos soldados e assistiu quase cinquenta carros saírem em desfile para as ruas.

Ele havia dito que tem convites do mundo empresarial, de meios de comunicação e de entrada na política. Sugeriu, um pouco antes de livrar-se do assédio dos admiradores para a conversa particular com o secretário, que deve escolher a última opção, a ser anunciada nesta semana.

Se a população de São Paulo pensa que, com a aposentadoria comemorada na última sexta-feira (18), pelo menos o temido Telhada deixará as ruas – e as execuções feitas em nome da “segurança” da cidade – deve permanecer preocupada. O filho Rafael já é primeiro tenente. Sua referência é o trabalho do pai, a qual ele defende dizendo que todos os processos judiciais e militares já foram arquivados e que todas as mortes foram por legítima defesa. Com a retórica automática, Rafael sustenta que “se no meio do caminho algum bandido morreu, é porque ele quis trocar tiro com a polícia”. Também cercado para fotos, ele acha que o pai é considerado polêmico por falar a verdade, por colocar “o pessoal pra trabalhar”, e por “fazer o que é correto dando exemplo”. “Essa é a função do líder”, conclui, com olhar fixo, como se estivesse adiantando seu próprio futuro.

 

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