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A cada dia, só o Capão Redondo já tem 2 assassinatos
Fonte: O Estado de S. Paulo
30.06.2012

Bairro da zona sul da capital registrou 21 homicídios em apenas 10 dias. Violência também cresceu na região central, com 12 mortes. Ciclos de vingança e impunidade se repetem há 50 anos.

O Capão Redondo, na zona sul, foi o bairro de São Paulo que concentrou a maior quantidade de homicídios na capital nos últimos 11 dias. Entre a 0 hora do dia 17 e as 23h59 do dia 28, morreram 21 pessoas na área do 47.º DP. Os dados são do Sistema de Informações Criminais (Infocrim). Em junho de 2011, morreram 38 pessoas no bairro.

A situação também foi violenta na região central. No 1.° DP, na Sé, foram assassinadas 12 pessoas. Em junho de 2011, não houve nenhum assassinato na região. "Aqui no Capão, perdi sete conhecidos assassinados nos últimos dias", conta o padre Jaime Crowe, do Jardim ngela.

Segundo moradores do Jardim Jangadeiro, também na região do Capão, a morte do PM Paulo Cesar Lopes Carvalho, de 40 anos, no dia 21, pode ter gerado uma resposta violenta. Oito pessoas foram mortas desde então por atiradores que agem de forma semelhante. A última vítima foi o copeiro Eleandro Cavalcante de Abreu, de 21 anos, na madrugada de quarta. Testemunhas contam passou um Gol preto, com uma das placas tapada e outra fora de lugar, com dois homens com cordões de prata e ouro. Em seguida, outros dois homens com touca ninja vermelha e óculos escuros em uma moto XRE 300 atiraram contra o grupo onde estava Abreu, na Rua Abílio César. Os atiradores recolheram as cápsulas deflagradas.

A morte de Abreu foi o estopim para a revolta. Na noite de quinta, três rapazes incendiaram um ônibus e deixaram com o cobrador uma camiseta com nome de Eleandro e as frases "saudade eterna", "justiça", "si continua matando nos continua queimando", "uma vida inocente que a polícia tirou" e "ass: a população". Um dos incendiários ainda fez um pedido ao cobrador: "entrega isso aqui (a camisa) para a imprensa".

Sem antecedentes. Abreu trabalhou em uma lanchonete no Itaim-Bibi, mas estava desempregado. Não tinha antecedentes criminais. Assustado com a morte do filho, o operador de máquinas Raimundo Marques de Abreu, de 47 anos, pretende mudar do bairro onde vive há cerca de dez anos. "Meus parentes em Itaquaquecetuba sempre disseram que aqui é perigoso." Na mesma noite em que Abreu foi morto, atiradores balearam outras duas pessoas, que conseguiram escapar. Moradores dizem também que vivem sob ameaça da PM, que determina toque de recolher após 22h.

Questionada, a PM disse que não há denúncia de que policiais estariam "dando toque de recolher" e recomenda à população que, se houver qualquer atitude semelhante, anote os dados da equipe, prefixo da viatura, nomes dos policiais, dia e horário e os encaminhem à Corregedoria e à assessoria de imprensa do corporação. / BRUNO PAES MANSO e WILLIAM CARDOSO

Análise: Bruno Paes Manso

Uma das histórias mais obscuras da violência em São Paulo ocorreu depois dos ataques a policiais em maio de 2006. Entre os dias 12 e 20 daquele ano, 493 pessoas morreram a tiros no Estado - 43 delas eram agentes públicos -, assassinadas por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). A reação da Polícia Militar nos dias que se seguiram, denunciada por entidades de direitos humanos, ficou conhecida como crimes de maio.

Em maio de 2011, relatório publicado pela ONG Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade de Harvard apontou que 122 pessoas foram assassinadas por integrantes de grupos de extermínio. Nenhum dos autores chegou a ser punido pela Justiça.

Nos últimos 11 dias, apesar das denúncias feitas pela população acusando policiais militares como autores de execuções nas periferias, ainda não é possível apontar a responsabilidade pelos assassinatos. O crescimento dos homicídios na capital, contudo, já é, proporcionalmente, mais alarmante do que o verificado em maio. Nos nove dias de 2006, as 493 mortes no Estado representaram 97% dos 505 assassinatos mensais daquele ano. Já o total de 127 mortes dos últimos 11 dias é 53% maior do que o número de homicídios em junho de 2011.

O que é possível afirmar com tranquilidade é que os círculos de vingança envolvendo autoridades de segurança e bandidos sempre andaram juntas com a impunidade na história de São Paulo.

Ocorreu durante os crimes de maio e voltou a acontecer em abril de 2010 em São Vicente, quando 23 pessoas foram assassinadas em duas semanas depois da morte de um policial militar. História semelhante já ocorria nos anos 1960 e acabou servindo como justificativa para o surgimento do Esquadrão da Morte, dentro dos quadros da Polícia Civil. Integrantes do Esquadrão da Morte passaram a matar suspeitos em novembro de 1968 depois que um investigador da Polícia Civil foi assassinado por um traficante de drogas na zona norte. A falta de punição é sempre um incentivo para que as atitudes voltem a se repetir ao longo da história.


 

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