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Verdades inconvenientes
Fonte:  CruzeiroNet - Sorocaba
24.07.2012


Um dos temas atuais que passam quase desapercebidos, para não sair do foco central da Comissão da Verdade, é a própria tortura

Um ponto de vista interessante sobre a Comissão da Verdade, criada pelo governo federal para investigar os crimes de morte e tortura praticados pelo regime militar nos anos 1960/70, foi apresentado aos leitores deste jornal pelo escritor Mário Prata, em entrevista ao jornalista Carlos Araújo ("Grande encontro das letras", 22/7, págs. C4 e C5).

Para o autor de "Diário de um Magro" e "Minhas Vidas Passadas (a Limpo)", mais importante do que investigar os fatos da ditadura é o País trabalhar para desfazer aquilo que ele entende ser o pior legado do regime militar: a baixa qualidade da educação, o desestímulo à leitura ("O que adianta alfabetizar o cara, se o cara não vai ler? Tá alfabetizando o cara pra quê?"), a desvalorização do magistério, enfim, a ausência de iniciativas de impacto para mudar um quadro de pouca ou nenhuma familiaridade com as letras, percebido até mesmo entre universitários.

Com sua sinceridade desconcertante para os padrões politicamente corretos de hoje, Prata reverbera aquele que deve ser o pensamento de muitos brasileiros, não só em relação à educação - a verdadeira grande revolução social do Brasil, que os governos se recusam a fazer -, mas também no que diz respeito a outros problemas da atualidade, que não parecem merecer, dos antigos militantes de esquerda plantados em postos-chave do governo, a mesma energia canalizada para a tentativa de revanche histórica contra os torturadores da ditadura militar.

Um dos temas atuais que passam quase desapercebidos, para não sair do foco central da Comissão da Verdade, é a própria tortura, ainda presente em delegacias e presídios do País, porém ignorada até mesmo por pessoas que se afirmam ativistas dos direitos humanos, já que os torturados, desta vez, não são professores, sociólogos, médicos, jornalistas, estudantes e operários acusados de subversão, mas sim a chamada ralé, formada por ladrões, assassinos, estupradores, sequestradores e pequenos traficantes que não têm foro privilegiado nem dinheiro para contratar um bom escritório de advocacia.

Em abril, durante visita à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, a presidente Dilma Rousseff foi incrivelmente sincera - e também muito infeliz - quando, ao responder ao questionamento de uma aluna, recusou-se a comentar possíveis violações dos direitos humanos na Venezuela, com a alegação de que o Brasil também tem problemas e não consegue erradicá-los.

A declaração textual, impregnada pela sintaxe truncada dos improvisos presidenciais, foi: "Do ponto de vista do Brasil, sempre que podemos e temos oportunidade manifestamos o interesse do país em defender os direitos humanos. Agora, posso te dizer uma coisa: o Brasil tem grandes desrespeitos aos direitos humanos. Não sei como acontece, não tenho como impedir que nas delegacias do Brasil não haja tortura." O conformismo de Dilma, ao assumir sua impotência diante da tortura de que ela própria foi vítima nos anos de chumbo, revoltou entidades de defesa dos direitos humanos, para as quais existem muitos meios de coibir agressões físicas e psicológicas a acusados, suspeitos e encarcerados sob custódia da polícia ou do sistema de execuções penais.

O País - e, neste substantivo tão amplo, cabem o governo Dilma e o PT; intelectuais e luminares acadêmicos; autoridades políticas, policiais e judiciárias, além de grande parte da imprensa; - o País que se empenha em passar a limpo o livro do passado, sob a ótica dos vencidos de então que se tornaram vencedores, não pode se recusar a sequer folhear o livro do presente, como tem acontecido. É compreensível que se pretenda resgatar a verdade histórica da ditadura militar. Mas só se pode conceber esse tipo de revisão com grandeza de alma, sem fechar os olhos hipocritamente à alienação e à tortura de hoje, que fazem das escolas, presídios, e dos presídios, escolas.

 

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