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Entidade: massacre do Carandiru foi extermínio de pobres
Fonte: Terra - São Paulo
01.10.2012

Elaine Patricia Cruz

O massacre no Carandiru, que levou 111 presos à morte, há 20 anos, é símbolo da política de extermínio e de encarceramento em massa da população mais pobre, ainda hoje praticada pelo governo de São Paulo. Essa é a opinião da Pastoral Carcerária e do Movimento Mães de Maio. "O massacre do Carandiru é símbolo da convergência de duas políticas do Estado que ainda vigoram: a política de extermínio e de encarceramento em massa da população mais pobre e periférica. Essas duas políticas não só subsistiram como também hoje estão mais aprofundadas", disse Rodolfo Valente, advogado da Pastoral Carcerária em São Paulo e integrante da Rede 2 de Outubro, que congrega vários movimentos sociais.

Para Débora Maria da Silva, coordenadora do Movimento Mães de Maio e mãe de uma das vítimas dos chamados Crimes de Maio, o governo erra ao priorizar a segurança pública em detrimento de políticas públicas voltadas à população mais jovem e carente. "O Estado não tem o direito de achar que tem autonomia para matar e encarcerar. Mas é mais fácil matar e encarcerar do que investir em escolas profissionalizantes, por exemplo, para dar dignidade às pessoas", disse ela.

O Movimento Mães de Maio foi criado em 2006, no mês marcado por uma onda de crimes violentos, atribuídos principalmente a confrontos envolvendo policiais e membros da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), e que ficaram conhecidos como Crimes de Maio. Os confrontos provocaram a morte de 493 pessoas.

De outro lado, a Secretaria de Segurança Pública diz que a análise feita pelas entidades pode estar associada a "interesses eleitoreiros" e alega que a comparação com a situação atual é indevida. "A taxa de letalidade da polícia paulista caiu significativamente ao longo da década. Ela era, em 2003, de uma morte por 132 prisões e apreensões realizadas. Hoje, a taxa é de uma morte por 290 prisões. A taxa de mortos pela polícia em São Paulo é de 1,1 por cada grupo de 100 mil habitantes. No Rio de Janeiro, por exemplo, é de 3,1 por 100 mil", informou a secretaria.

Segundo a Pastoral Carcerária, há mais de 200 mil presos em todo o Estado de São Paulo e a situação é pior que em 1992. "Em São Paulo, nesse ano de 2012, temos uma média de entrada no sistema prisional de 9 mil pessoas e uma média de saída de seis mil pessoas por mês, o que dá um saldo de três mil pessoas a mais por mês. Para dar conta disso, teríamos que construir quatro presídios por mês."

A Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) informou que a população prisional do Estado de São Paulo até a última quinta-feira (27) era de 193.612 pessoas, sendo que 188.125 estão sob custódia da SAP e 5.487 da Secretaria de Segurança Pública (SSP). A secretaria não respondeu se há superlotação e qual é a capacidade do sistema atual.

Padre Valdir Silveira, coordenador nacional da Pastoral Carcerária, aponta também outro problema, que atinge o País como um todo. Para ele, o sistema prisional e a Lei Penal são ainda mais violentos do que o crime. "Eles matam muito mais hoje do que as pessoas que estão lá dentro", disse. "O sistema prisional não é só falho. É algo caro, inútil e violento à sociedade. E atinge principalmente às vítimas."

De acordo com o padre Valdir, a construção de um presídio no País custa cerca de R$ 40 milhões, em média. "A sociedade investe no sistema prisional na ilusão de que o Estado vai recuperar a pessoa que está aprisionada. E por isso gasta tanto. Em média, os gastos no Brasil são R$ 1,5 mil mensais por preso. Somado aos gastos com o Judiciário e com a polícia, temos um gasto altíssimo. Passa de R$ 3 mil o custo mensal de um preso", disse o padre.

 
Protestos marcam 20 anos do massacre do Carandiru
Fonte: O Estado de S. Paulo
03.10.2012

Bruno Paes Manso

Sé teve ato ecumênico e faixas; na frente da casa do ex-governador Fleury, 60 manifestantes leram nomes de mortos.

Uma série de atos e manifestações marcou ontem os 20 anos do massacre do Carandiru. Naquela ocasião, 111 pessoas morreram depois da entrada da Polícia Militar no presídio.

Juridicamente, a data também marca a prescrição da pena de autoridades que estavam à frente de cargos executivos no período, como o governador da época, Luiz Antonio Fleury Filho, e o então secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos. Nenhum dos dois chegou a ser denunciado nos processos. "Desde ontem, mesmo se surgirem novidades que incriminem os dois no episódio, eles não podem mais ser processados", explica a professora Marta Machado, da FGV.

As manifestações começaram pela manhã, quando 60 manifestantes se concentraram na frente da casa do ex-governador Fleury para ler o nome dos mortos, declamar poesias e cantar canções de protestos, em um tipo de movimento conhecido como "escracho", também feito a acusados de tortura no Regime Militar. A atividade durou cerca de 30 minutos e foi pacífica.

À tarde, integrantes de movimentos como a Rede 2 de outubro, Pastoral Carcerária, Levante Popular da Juventude e Mães de Maio partiram para a Praça da Sé e se reuniram com cerca de 70 manifestantes em ato ecumênico para relembrar o episódio. Entre os presentes estava o sobrevivente do massacre Davi Oreste, de 67 anos, que atualmente dá aulas de violão em uma igreja de Osasco. Disse ter visto amigos serem assassinados e acredita que sobreviveu por sorte. "Fiquei no meio dos grupos para não ser atingido."

Do outro lado, "apoiadores" do massacre se manifestaram sobretudo pelo Facebook de "admiradores da Rota". Mais de mil pessoas curtiram o texto em que se afirmava que a PM fez um "serviço de utilidade pública" ao matar 111.
 

 



 

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