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Testemunha diz que número de mortos no ‘Massacre do Carandiru’ é o dobro do divulgado
Fonte:
Globo Online - Rio de Janeiro
16.04.2013

Marcelle Ribeiro e Leonardo Guandeline


Ex-detento é a primeira testemunha da acusação a prestar depoimento e diz que viu corpos em caçamba. Vinte e seis PMs serão julgados sob acusação de homicídio.

Massacre no Caradiru aconteceu em outubro de 1992 Nellie Solitrenick / Arquivo O Globo

SÃO PAULO - Após ter sido adiado na semana passada, teve início nesta segunda-feira o julgamento de 26 policiais militares envolvidos no chamado “Massacre do Carandiru”, que terminou com a morte de 111 presos da Casa de Detenção de São Paulo, em 2 de outubro de 1992. A primeira testemunha de acusação, Antonio Carlos Dias, que era detento na época, disse que acredita que o número de mortos é superior aos 111 divulgados oficialmente.

— Os presos não tinham armas nem mesmo facas. Eu acredito, no mínimo, que seja o dobro disso. Os 111 eram pessoas que recebiam visitas de parentes regularmente. Quem não recebia visita foi descartado como lixo. Na contagem deram falta de muitos presos que não estavam na lista dos 111 —contou Antonio Carlos Dias.

Ele lembrou ainda que os corpos foram jogados em caçambas de lixo. No entanto, Dias disse não viu como os detentos teriam sido jogados, mas que teria visto os corpos lá dentro. Ele ainda descreveu a briga dentro do pavilhão e contou que os presos tinham medo de olhar para os policiais porque eles intimidavam.

Dias afirmou que viu presos carregando corpos e que também presenciou corpos amontoados. Ele disse que não viu policiais atirando em detentos nas celas, mas ouviu diversos disparos de arma de fogo.

Dias, que cumpriu pena de cinco anos por assalto a mão armada, contou que durante o massacre foi ferido nas pernas, nos braços e teve o nariz quebrado, mas afirmou que não é capaz de reconhecer os policiais que o agrediram. Segundo ele, vários detentos passaram a noite esperando atendimento médico depois de terem sido baleados.

No início do depoimento, Dias se emocionou.

— Me emocionei porque eu consegui sobreviver. As barbáries que a gente viu foram terríveis. Quem sobreviveu vai se emocionar. É uma boa comparação essa do campo de concentração — afirmou, ao ser relembrado pelo promotor Fernando da Silva de declarações que deu anteriormente à Justiça.

Questionado sobre a suposta presença de armas de fogo dentro da casa de detenção, ele afirmou que acredita que elas tenham sido colocadas no local por policiais.

— Os presos diziam que (policiais) trouxeram armas na invasão e plantaram lá.

O depoimento de Dias durou mais de duas horas. Os réus não participaram da sessão. O júri é formado por seis homens e uma mulher. Eles tiveram 40 minutos para ler partes do processo e se familiarizarem com o caso. Caberá a eles decidir se os policiais são culpados ou inocentes do crime de homicídio doloso qualificado (quando há intenção de matar, sem dar chance de a vítima se defender).

Ex-detentos negam posse de armas de fogo

Também preso na Casa de Detenção na ocasião do massacre, Luiz Alexandre de Freitas, terceira testemunha do dia a ser ouvida, chegou a apontar para um dos PMs réus dizendo que o havia visto no Carandiru no dia 2 de outubro de 1992. Ele relatou que, além de desarmados, os presos estavam com a mão na cabeça aquele dia. E, ainda assim, foram mortos.

— Para me salvar, me escondi debaixo de alguns cadáveres. O sangue deles, ainda quente, escorria pelo meu corpo.

Antes dele, prestou depoimento Marco Antonio de Moura, preso na ocasião por roubo. Ele também negou que os presos do Pavilhão 9 estivessem com armas de fogo e afirmou que não houve resistência quando da invasão da Polícia Militar (PM). Ouvido por cerca de uma hora, Moura disse que, após a entrada da PM, os presos se recolheram para as celas, correndo dos policiais. Em seguida, ouviu muitos tiros, principalmente no segundo pavilhão, onde 78 presos foram mortos.

— Não tinha como atacar policiais armados até os dentes. Se alguém estivesse com faca, certeza que jogaria — disse.

De acordo com Moura, um policial militar, quando da invasão do pavilhão, chegou a dizer a seguinte frase: “Deus cria, a Rota mata. Viva o Choque!”. A testemunha, condenada por roubo em 1988 e em liberdade desde 1994, disse, ainda, que o desentendimento entre os dois detentos (Barba e Coelho), considerado estopim para a invasão da Casa de Detenção, “não era uma briga de todos, e sim de uma quadrilha”.

— Houve bastante quebra-quebra (durante a briga). Depois só vi que ficamos sem energia — disse a testemunha, que nega ter ouvido tiros no Pavilhão 9 antes da chegada da PM.

Aos promotores de Justiça, Marco Antônio de Moura disse que todos os mortos que viu durante a descida dos presos para a galeria, após o massacre, estavam nus, ao contrário do que disse a primeira testemunha de acusação do julgamento dos 26 PMs.

— Vi mortos no segundo andar e na escada, descendo para a galeria, todos pelados. Fomos obrigados pelos policiais a gritar 'Viva o Choque”, alguns de nós fomos agredidos com coronhadas.

O julgamento começaria na segunda-feira passada no Fórum Criminal da Barra Funda, Zona Oeste da capital paulista, mas uma das cinco juradas (o conselho de sentença era composto por mais dois homens) passou mal logo do início da leitura das peças jurídicas.

Os réus que estão sendo julgados respondem em liberdade pela morte de 15 das 111 vítimas no primeiro andar do Pavilhão 9. A previsão é que o julgamento dure duas semanas.

Ao todo, 79 réus serão julgados este ano em, no mínimo, quatro blocos desmembrados. Os júris devem acontecer a cada dois ou três meses. Cada grupo responderá pelas mortes de um dos pavimentos.

‘A PM ficou mais preocupada em ajeitar a cena do crime’

O ex-diretor de disciplina e segurança do Casa de Detenção, Moacir dos Santos, disse que, no dia do massacre do Carandiru, agentes penitenciários e civis ficaram impedidos de entrar no Pavilhão 9 por cerca de oito horas. Segundo ele, policiais militares entraram no pavilhão entre 14h30m e 15h, e agentes só tiveram acesso aos pavimentos onde havia "um tapete de corpos" por volta das 23h. Ele disse que agentes penitenciários só tiveram acesso ao pavilhão por volta das 19h, mas foram impedidos por PMs de acessar os pavimentos.

- A PM ficou mais preocupada em ajeitar a cena do crime - disse.

Segundo Santos, havia um acordo para entrada da Polícia Militar e agentes penitenciários para conter a briga entre duas facções que acontecia no pavilhão, no segundo e terceiro pavimento (primeiro e segundo andar), utilizando "escudeiros" da Tropa de Choque, mas isso foi descumprido.

- Não deu tempo. O Choque entrou antes, invadindo e não respeitando nem a ordem do coronel Ubiratan. Eles atiraram em um botijão de gás, causando uma explosão e queimando um preso. O próprio coronel Ubiratan foi ferido com explosão de um aparelho de tevê. Daí todas as autoridades (que haviam anunciado um acordo) presenciaram a saída dos oito primeiro detentos, todos baleados e que acabaram morrendo.

- Nenhum civil entrou do portão (do pavilhão 9) para dentro. Só fui ter acesso ao pátio às 19 horas.

Segundo Moacir dos Santos, em cinco anos de Casa de Detenção antes do massacre, ele só havia apreendido uma arma de fogo com presos. Ele disse não acreditar na versão da PM de que 13 armas de fogo foram apreendidas com detentos.

O ex-diretor do Carandiru disse que, quando teve acesso aos pavilhões, viu corpos empilhados em uma sala de esportes e na entrada do segundo pavimento. A exceção era uma sala no quinto andar (quarto pavimento) que estava trancada. Na cela, onze presos estavam mortos, e os corpos foram encontrados na manhã de sábado.

- Foi durante a operação de rescaldo (que os onze corpos foram encontrados). Como o governador havia ordenado a visita no dia seguinte (domingo), tiraram os onze da cena do crime antes da chegada da perícia. Os corpos foram levados para a enfermaria do Pavilhão 4 e de lá para o IML - disse Santos.

‘90% dos tiros foram disparados nas celas’

O perito Osvaldo Negrini Neto, quinta e última testemunha de acusação a ser ouvida neste primeiro dia do júri de 26 policiais militares acusados de participação no "Massacre do Carandiru", disse que a história daquele dia, 2 de outubro de 1992, "está nas paredes", em referência aos tiros disparados contra os presos do Pavilhão 9 por parte da Polícia Militar (PM), a maioria deles de metralhadora. Responsável pelo laudo da cena do crime na ocasião, o perito disse que teve contato apenas com 13 armas de fogo (uma pistola e revólveres calibres 32 e 38) e "mais de 150" armas brancas e artesanais (espadas improvisadas, punhais etc.) que supostamente pertenceriam aos presos. As armas dos PMs foram entregues posteriormente à perícia.

- Quando se dispara com uma metralhadora, temos a formação de uma linha na parede. E havia várias linhas nas paredes das celas - acrescentando que foram encontrados vestígios de cobre nas marcas de tiro nas paredes, comuns em munições de metralhadoras, pistolas e fuzis.

O perito disse, também, que 90% dos tiros foram disparados nas celas, ainda que 90 corpos tenham sido encontrados amontoados na entrada do segundo pavimento (primeiro andar) quando da chegada da perícia (entre a sexta-feira e o sábado) - outros 8 corpos foram removidos no dia da invasão da PM, uma sexta-feira, e mais 13 foram encontrados em duas outras celas, no sábado, após uma varredura no pavilhão, no quarto e no quinto pavimento. As celas, na ocasião, estavam trancadas.

O perito disse, também, que 90% das vítimas foram mortas nas celas, ainda que 90 corpos tenham sido encontrados amontoados na entrada do segundo pavimento (primeiro andar) quando da chegada da perícia (entre a sexta-feira e o sábado) - outros 8 corpos foram removidos no dia da invasão da PM, uma sexta-feira, e mais 13 foram encontrados em duas outras celas, no sábado, após uma varredura no pavilhão, no quarto e no quinto pavimento. As celas, na ocasião, estavam trancadas.

Osvaldo Negrini Neto apontou dois pontos prejudiciais ao trabalho dele na ocasião: a remoção dos cadávares para outros locais que não os dos crimes e o fato de não ter encontrado "nenhuma cápsula" no pavilhão.

- Isso me levou a concluir que a preservação do local falhou (...) Ficou claro para mim, também, que (os policiais militares) não queriam que fosse feita a perícia - acrescentou, dizendo que ele havia determinado que o local fosse preservado, com exceção da retirada dos corpos, o que não ocorreu, segundo ele.

Questionado pela Promotoria sobre se houve ou não disparo contra os policiais que atiraram da entrada das celas, Osvaldo Negrini Neto foi enfático:

- Não, com absoluta certeza.

A acusação havia arrolado 14 testemunhas para o júri, mas dispensou as demais. Nesta terça-feira, o júri terá início pelas testemunhas de defesa. Entre elas estão arroladas o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho e o secretário de Segurança Pública na ocasião do massacre, Pedro Franco de Campos.

Outubro de 1992

O crime aconteceu em 2 de outubro de 1992, uma sexta-feira, depois que tropas da Polícia Militar (PM) entraram na Casa de Detenção de São Paulo para conter uma rebelião de presos. A direção da penitenciária pediu a ajuda da PM para controlar a situação. A entrada dos policiais militares foi autorizada pelo então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, e pelo ex- governador paulista Luiz Antônio Fleury Filho.

Sobreviventes e familiares de vítimas contestam os dados, dizendo que o número de mortes foi superior a 111. Participaram da invasão ao Carandiru as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a Tropa de Choque, o Comando de Operações Especiais (COE) e o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate).

A ação da PM no Carandiru durou cerca de meia hora. Apesar dos presos não portarem armas de fogo, exames do Instituto Médico Legal mostraram que 102 detentos foram mortos com tiros. Nove deles foram vítimas de golpes de armas brancas, o que indica que as mortes podem ter ocorrido antes da chegada da PM. Nenhum policial foi morto.
 

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