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'Quanto mais violento você é, mais poder tem'
Fonte: O Estado de S. Paulo
25.08.2013

Lourival Santanna

Funcionários da Fundação Casa dizem ao 'Estado' que agressões contra internos são parte de 'mentalidade' e que independem de mudança de regras.
 
"Aquilo que apareceu nas imagens é muito pouco. É só o tira pó." A avaliação, de um agente de segurança da Fundação Casa, sobre as cenas de espancamento de adolescentes transmitidas pelo programa Fantástico há uma semana, sintetiza uma prática entranhada e disseminada na instituição, segundo funcionários ouvidos pelo Estado.

Os funcionários, que pediram anonimato por medo de represálias, disseram que, logo depois de chegar às unidades, os internos são espancados pelos agentes de segurança, para "saberem quem manda", e voltam a ser agredidos e ameaçados, quando desobedecem códigos de conduta às vezes descabidos.

"Vou ser sincero", disse um coordenador de segurança que já foi diretor de unidade. "Precisa dar uns empurrões. Se chegar passando a mão na cabeça, já era. Eles tomam conta."

"Não adianta mudar os funcionários ou as regras, se a mentalidade continua", observou um funcionário da área da educação. De acordo com os relatos, os agentes de segurança que se recusam a agredir os menores sofrem assédio moral e recebem notas baixas nas avaliações, das quais dependem sua efetivação no cargo (depois de estágio probatório de três anos) e promoções futuras. "Quanto mais violento você é, mais prestígio e mais poder tem", resume um funcionário. "Se não concorda, é mal avaliado, transferido."

No período em que a unidade Nova Aroeira ficou sob intervenção da Gerência de Segurança Interna, que representa a direção da Fundação, funcionários do Complexo Raposo Tavares, zona oeste de São Paulo, observaram que o rigor das normas e a violência se intensificaram. A intervenção ocorreu em maio, depois que a TV Bandeirantes exibiu imagens que mostravam a influência, sobre os internos, do Primeiro Comando da Capital (PCC), que opera nos presídios. Durou até a semana passada.

Os internos foram divididos em dois grupos e passavam metade do dia presos nos dormitórios, sem fazer nada. Os que pediam livros não recebiam, sob a alegação de que poderiam esconder algo neles. Os internos apanham quando têm reações típicas de adolescentes. Um menino que não teve permissão para ir para uma atividade para a qual iam outros quatro perguntou o que eles fariam. O agente respondeu que não era da sua conta. "Não queria ir mesmo", desafiou o menino. Foi espancado por causa da resposta, relatou um funcionário.

Quando um professor se ausenta da sala de aula, todos os adolescentes são obrigados a encostar a cabeça na carteira escolar, fechar os olhos e ficar nessa posição até ele voltar - o que pode demorar uma hora. Quem desobedece, apanha, segundo um educador. Em algumas unidades, os meninos precisam andar de mãos para trás e cabeça baixa, e chamar os adultos de "senhor". O descumprimento também pode levar a espancamentos.

As agressões ocorrem à noite, depois que os educadores e psicólogos vão embora, dizem os funcionários. Quando promotores visitam as unidades, os diretores escolhem com quais internos poderão falar. E os espancamentos são acompanhados de ameaças de que apanharão mais e vão "mofar" lá dentro se contarem para alguém. Denúncias de maus-tratos feitas há três anos à direção, à Corregedoria e à Ouvidoria não foram apuradas, afirmaram os funcionários, e coordenadores de segurança denunciados são às vezes promovidos a diretores.

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