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Sem encontrar inimigos, PM oferece bombardeio aleatório no centro de SP
Fonte: Última Instância, São Paulo
17.09.2014

Rodrigo Gomes, da RBA

Depois de conflitos com sem-teto de manhã, polícia faz demonstração de força à tarde e ataca população, mesmo sem provocação

Após o confronto com as famílias despejadas na manhã de terça-feira (16/9), do antigo Hotel Aquarius, na avenida São João, centro da capital paulista, a Polícia Militar paulista usou bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, além de balas de borracha, em um violento ataque para dispersar um grupo de sem-teto e de curiosos que acompanhavam a retirada dos pertences dos moradores. A coordenadora da Frente de Luta por Moradia (FLM), Silmara Congo, disse que não houve nenhuma ação dos moradores. "Não entendi por que a PM começou a atacar", afirmou.

De manhã a PM já havia detido pelo menos dez crianças junto com seus pais, entre os 70 sem-teto que foram levados ao 3º Distrito Policial, na rua Aurora, centro da cidade, sob alegação de terem resistido a reintegração de posse.

À tarde, a RBA chegou ao local às 16h30 e já encontrou um cenário de caos, com um grupo de policiais da Tropa de Choque descendo a avenida São João, sentido Vale do Anhangabaú, em frente ao Largo do Paissandu. As pessoas corriam desesperadamente enquanto se ouviam disparos de balas de borracha e explosões de bombas de gás lacrimogêneo.

Segundo o aposentado Edvaldo Lira, que estava acompanhando a ação, três jovens teriam ateado fogo em um saco de lixo e isso foi o estopim da ação policial.

A polícia parou na esquina da rua Conselheiro Crispiniano e retornou em direção ao ponto de partida, sempre atirando bombas e balas de borracha, em todas as direções. Mas não havia ninguém enfrentando os policiais naquele momento.

Outro grupo do Batalhão de Choque permaneceu na esquina da avenida São João com a rua Dom José de Barros. Não era possível falar com os policiais. Os jornalistas que se aproximavam eram mandados, aos berros, afastar-se. Um morador de rua se aproximou da barreira militar e foi repelido com spray de pimenta disparado em seu rosto. Este grupo também arremessava bombas e atirava balas de borracha em várias direções. Sem um oponente a enfrentar.

Os policiais que voltaram caminharam no sentido da avenida Rio Branco, disparando balas de borracha e arremessando bombas. Depois subiram a rua Dom José de Barros, encontrando outro grupo que vinha pela rua Vinte e Quatro de Maio. Sempre com os escudos empunhados, armas de balas de borracha apontadas e bombas à mão. Viaturas circulavam em alta velocidade pelas ruas, com sirenes disparadas.

A ação ostensiva, com movimentos coordenados e ações determinadas por palavras curtas de um agente que coordenava o grupo, contrastavam ainda com a ausência de um oponente. Não havia qualquer reação das pessoas que estavam no local. E todas diziam não entender o que estava havendo.

Pessoas que saíam do trabalho corriam apavoradas. “Por favor, para eu só quero ir pra casa. Eu não estou protestando, não”, disse uma moça, aos prantos. E, na verdade, naquele local, ninguém estava. A rua Dom José de Barros tinha bancos revirados, uma parede de lacração quebrada, mas os lojistas locais disseram que era resultado da ação da manhã.

Todo o comércio da região entre a avenida Ipiranga, a praça da República, a rua Vinte e Quatro de Maio e o Vale do Anhangabaú fechou as portas. Havia alguns telefones públicos destruídos, mas as pessoas que estavam no local afirmaram também ser restos do protesto da manhã.

A desproporção da ação remonta ao ato contra o aumento da tarifa em São Paulo, de 13 de junho do ano passado, quando a PM prendeu cerca de 150, agrediu jornalistas e sonegou informações sobre o ocorrido. Nesta terça-feira (16), ao menos até o momento, não há informação sobre feridos.

Após cerca de 30 minutos, a ação parou. Os policias se reagruparam. E os jornalistas tentavam entender o motivo da ação. A RBA entrou em contato com a militante Silmara, da FLM, e no local em que ela estava – na esquina das avenidas São João e Ipiranga, no lado oposto ao da ocorrência – estava tudo calmo. Nenhuma bomba foi atirada naquela direção. E este era o lugar em que os sem-teto, efetivamente, estavam aglomerados. A RBA tentou contatar a assessoria de imprensa da Polícia Militar das 16h às 18h, sem sucesso. Às 18h20, a corporação forneceu o primeiro nome de um dos comandantes da operação ("Glauco"), e nada mais.

Quinze minutos depois, sem qualquer justificativa – e indiferente a se eram militantes, sem teto, curiosos ou jornalistas – a PM descarregou uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo na esquina da avenida São João com a rua Dom José de Barros, provocando correria entre os que estavam ali. Uma mulher desmaiou e outras pessoas tiveram de ser puxadas do local, pois estavam engasgadas com o gás.

"O que aconteceu?", era a pergunta que todos faziam. Não houve qualquer ação de manifestantes no local. Não foi percebida nenhuma agressão contra os policiais. Dois ônibus do batalhão de choque avançaram sentido Vale do Anhangabaú. Outro convergiu sentido Teatro Municipal. Os policiais seguiam em pequenos grupos, novamente com escudos em punho e armas de borracha e bombas em mãos. Os únicos perseguidos eram as pessoas que fugiram das bombas arremessadas minutos antes.

Depois dessa ação, algumas pessoas começaram a chamar os policiais de fascistas. Outras cobriram o rosto e passaram a atear fogo em lixo para fazer barricadas e evitar o avanço da Tropa de Choque. Nas redes sociais, ativistas começaram a convocar ações no local, para reagir à ação da PM.

Até o momento em que a RBA permaneceu no local havia poucos focos de incêndio e barricadas pelas ruas. As explosões de bombas de gás lacrimogêneo continuaram e o barulho das sirenes era percebido em várias vias.

A 19 dias do primeiro turno das eleições estaduais, os episódios violentos no centro da capital podem ser decisivos para confirmar, ou não, a reeleição do governador Alckmin em uma única votação. "Tudo depende de como será a repercussão, nas redes sociais e na mídia tradicional, do conflito no centro", aponta a cientista política Maria do Socorro Souza Braga, da Universidade Federal de São Carlos. "As redes sociais tendem a politizar e aprofundar mais o debate sobre esse tipo de ação da polícia, e tem até mais poder de 'virar' votos. Mas o alcance é menor. Teremos de ver como a mídia tradicional, que ainda atinge um público maior, tratará o assunto. O principal 'atingido' por eventos dessa natureza é o indeciso", ponderou.

Alckmin foi convidado desta terça-feira (16) hoje do SPTV, jornal do horário do almoço da Rede Globo, como candidato à reeleição, mas não foi questionado sobre o assunto. O Jornal Hoje, que começou na sequência, destacou "cenário de guerra e terror" no centro de São Paulo, e classificou como "baderneiros e vândalos" os sem-teto que protestaram contra a polícia. "O eleitorado paulistano é mais conservador. Ele, de forma geral, gosta desse tipo de política pública para a segurança, porque é uma política agressiva de proteção da propriedade", aponta Maria do Socorro. "Então, se a imagem que aparece na TV é apenas de gente tentando abrir lojas, depredando prédios, as pessoas tendem a apoiar a polícia", reflete.

 

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