TORTURA

Família acusa a polícia de torturar e matar  preso que apareceu enforcado no 40º DP (Vila Santa Maria – zona norte de São Paulo) - 6 de outubro de 2005

Voltar
 

Data: 6 de outubro de 2005
Local: cela do 40º Distrito Policial (Vila Santa Maria), na zona norte de São Paulo
Vítima: Alberto Alves de Souza, 21 anos
Agentes do Estado: policiais militares da 2º Companhia do 18º Batalhão da PM e policiais civis do 40º DP

Relato do caso: No dia 5 de outubro de 2005, às 14 hs, Alberto Alves de Souza, jornaleiro, de 21 anos, foi preso com sua mulher, a dona de casa Lara Ranielly Vieira da Silva, de 20 anos, por policiais militares da 2ª Companhia do 18º Batalhão. Na versão dos policiais, Lara estaria conduzindo um Fiat Uno vermelho, pertencente a Alberto, na Rua Ninete, na Casa Verde, zona norte de São Paulo, quando foi abordada pelos policiais. Dentro do carro eles teriam encontrado porções de maconha. Em seguida teriam entrado com Lara na casa dela e nesse momento Alberto estaria no banho. Sempre segundo a polícia, na casa foram encontrados R$ 3.205,00, uma espingarda calibre 12, uma pistola ponto 40, munição, CD Player, toca-fitas de carro, folhas de cheque, cartões de crédito, um tijolo de maconha e dez papelotes de cocaína.

Para a família de Alberto a mentira começa no relato da abordagem, uma vez que Lara não sabia conduzir. Segundo o depoimento de Lara à Polícia Civil, ela e o marido começaram a ser espancados ainda em casa deles e no caminho, dentro da viatura de polícia. Levaram socos e pontapés de dois policiais militares, um homem e uma mulher. Uma vizinha que não quis se identificar por medo, declarou: “Nós ouvimos os gritos dela. Foi um policial conhecido como Alemão que bateu nos dois” (
Jornal da Tarde, 07/10/2005).

O casal foi então levado para o 40º Distrito Policial, em Vila Santa Maria (zona norte de São Paulo), lá chegou às 17 hs, e o delegado de plantão registrou no Boletim de Ocorrência tráfico de entorpecentes e porte ilegal de armas. O B.O. só foi concluído e assinado pelo casal às 6h30 do dia 6 de outubro. Depois disso os dois foram levados para celas diferentes no 40º DP. Para o delegado nessa ocasião os dois “pareciam estar saudáveis, não reclamaram de nenhuma dor ou lesão” (Jornal da Tarde, 07/10/2005). Segundo ainda a versão da Polícia Civil, Lara teria contado que esteve conversando com o marido desde as 14 hs do dia 5 de outubro, horário da prisão deles, até as 9 hs. do dia seguinte. As duas celas em que estavam eram separadas por uma parede que não chegava ao teto e os dois teriam podido conversar. Alberto teria pedido para beijar a mão de sua mulher. E, citando as supostas palavras de Lara: “Ele beijou a minha mão e disse que me amava. Depois não ouvi mais a sua voz” (O Estado de S. Paulo, 07/10/2005). Depois disso, sempre segundo o relato da Polícia Civil, Lara apenas escutou o marido vomitando, perguntou se ele estava bem mas ele não respondeu.

Às 8hs o plantão policial foi trocado. Dois investigadores da nova equipe olharam as celas para ver se estava tudo bem; e estava! Às 10 hs um policial entrou na cela da carceragem e viu Alberto de costas para a grade, com o pescoço envolto em uma blusa de moletom, como se tivesse se enforcado. Julgaram que estava desmaiado e o levaram para o Hospital Nova Cachoeirinha, onde ele já chegou morto. Para a polícia, foi um suicídio.

Situação da investigação: A família de Alberto Alves de Souza não aceitou a versão de suicídio. Avaliaram que Alberto era um jovem cheio de vida e de planos com a mulher. Seus parentes constataram no Instituto Médico Legal Central vários hematomas no corpo e o braço direito enfaixado, além de ter marcas roxas nos olhos. O Procurador do Estado, Vitore Maximiano, solicitou à Juíza Corregedora da Polícia Judiciária e do Departamento de Inquéritos Policiais (DIPO), Dra. Ivana David Boriero, que investigasse o caso. O procurador ouviu o depoimento dos familiares e declarou: "O acusado estava sob custódia do Estado, que deveria zelar pela sua segurança. Agora serão feitos mais exames periciais no corpo dele. (...) Haverá uma investigação rigorosa e, havendo pessoas responsáveis pela morte do Souza, elas sofrerão as conseqüências criminais" (Jornal da Tarde, 07/10/2005). Lara foi transferida para a Cadeia Pública Feminina de Pinheiros e ia ser ouvida pela Juíza Corregedora.

Fontes: Jornal da Tarde, 07/10/2005, 08/10/2005; O Estado de S. Paulo, 07/10/2005