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O 30º CONGRESSO DA UNE - 1968

O contexto da imprensa durante 1968 - [Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (São Paulo, Boitempo Editorial, 2004)] - Leia mais

Um triste congresso - [Texto escrito por Luiz Eduardo Merlino sobre o 30º Congresso da UNE - Folha da Tarde, 14 de outubro de 1968] - Leia mais

Quem é ela? - [Texto escrito por Luiz Eduardo Merlino sobre o 30º Congresso da UNE - Folha da Tarde, 14 de outubro de 1968] - Leia mais

Um defunto que não morreu - [Texto escrito por Luiz Eduardo Merlino sobre o 30º Congresso da UNE - Folha da Tarde, 14 de outubro de 1968] - Leia mais

Luiz Eduardo Merlino no 30º Congresso da UNE como jornalista e como militante - [Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (São Paulo, Boitempo Editorial, 2004)] - Leia mais
 

 
 


 O CONTEXTO DA IMPRENSA DURANTE 1968

Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (São Paulo, Boitempo Editorial, 2004)
 

Cap. 4 – O jornal de maior tiragem: a trajetória da Folha da Tarde

Os jornalistas
(...)
“Quando Abramo chegou pela primeira vez à Folha de S. Paulo, em fins da década de 1960, o jornal se encontrava em um momento de afirmação. O ano de 1967 foi o período inicial das transformações da Folha, quando o grupo passou a investir em tecnologia, com a aquisição de máquinas offset, e no aumento da frota para acelerar a entrega de seus jornais. Essas alterações se iniciaram pelo jornal Cidade de Santos, em 8/7/1967, e chegaram à Folha de S. Paulo em 1º /1/1968. No meio do caminho, em 19/10/1967, contemplaram a Folha da Tarde, que renasceu a partir de então. A utilização do offset permitiu que a Folha da Tarde fosse o primeiro jornal paulistano a publicar fotos coloridas na primeira página.” [p. 226]

Por que a Folha da Tarde renasceu?
(...)
“A Folha da Tarde renasceu em uma brecha ainda aberta em fins de 1967 e que logo se fechou. Se o jornal despontou sob o signo arrojado, foi perdendo esse fôlego no decorrer da caminhada. Para fazer frente ao Jornal da Tarde, tido por muitos como mais à esquerda, ou menos à direita, o Grupo Folha da Manhã, relançou a Folha da Tarde, com uma diretriz, naquele instante, de reportar a efervescência cultural e as manifestações estudantis a pleno vapor.” [p. 230]
(...)

“Nessa 'nova ordem mundial' [rock’n’roll, movimento feminista, guerra do Vietnã, Maio de 68 em Paris, Che Guevara] o JT e a Folha da Tarde, quando chegaram às bancas, encontraram no Brasil os festivais de música que revelaram Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Geraldo Vandré e muitos outros. O próprio Roberto Carlos, tido como mais 'enquadrado', mandava tudo para o inferno. No teatro, o Oficina encenava O rei da vela, e quatro peças de Plínio Marcos estavam em cartaz em São Paulo.
(...)
Mas também havia a efervescência contestatória dos movimentos estudantis, que cresciam em uma proporção geométrica, e os primeiro passos da luta armada. Assim, eram tempos em que as radicalizações engatinhavam.”
[p. 231]
(...)
“Essa proposta cumpriu seu papel por pouco mais de um ano e oito meses. No meio do caminho entre essa intenção e a realidade, tem-se a decretação do AI-5. Seguindo o desenho do novo tabuleiro político a partir de então, esse jornal passou a ter uma péssima fama e a sua redação foi completamente reformulada. Se no período até meados de 1969 tem-se a bonança, depois reinaram as trevas.”
[p. 232]

    
     Chico Caruso
   Folha da Tarde, 14 de maio de 1969

Antes da tempestade, a bonança

(...)
“No dia seguinte, 3 de outubro [1968], foram duas as manchetes da primeira página: os 12 mil estudantes reprimidos por soldados do Exército na Cidade do México e 'Maria Antônia volta a ferver', quando um aluno, José Guimarães, foi morto por membros do CCC [Comando de Caça aos Comunistas] e do Mackenzie. As fotos do confronto entre os alunos do Mackenzie e os da Filosofia da USP, que ganharam manchete também no dia 4 de outubro, foram feitas por Makiko Yshi, fotógrafa da Folha da Tarde e uma das primeiras mulheres nessa função. Nelas aparecem os estudantes do Mackenzie atirando na direção da fotógrafa. Recorrente na memória de seus colegas, essa seqüência de três fotos ilustra o clima que o jornal procurava captar nas ruas e mostrar." [p. 246]
(...)
"Dez dias depois, em 14 de outubro, a chamada da primeira página dizia: 'UNE já pensa na sua volta'. Depois do cerco policial ao trigésimo congresso da entidade ocorrido dois dias antes, em Ibiúna, onde mais de setecentos estudantes foram presos, os libertos prometiam passeatas por todo o país. Frei Betto relatou que o setorista de polícia da Folha da Tarde informou-lhe que os estudantes seriam presos durante o congresso clandestino. Mas era impossível avisá-los. Assim, restou ver a cobertura do congresso proibido feita para o jornal por Luís Eduardo Merlino e Antônio Melo, que é rica em detalhes, nomes e fotos.
(...)
Solucionando o dilema, a Folha da Tarde ilustrou as prisões em Ibiúna de maneira detalhada. Como o jornal nascia com a proposta de cobrir os movimentos estudantis, Luís Eduardo Merlino esteve presente no congresso proibido da UNE  para cobri-lo. Mesmo detido e transferido para o presídio Tiradentes, Merlino pôde, além de reportar os fatos, trazer mensagens dos companheiros presos.
   Sua reportagem, de cinco páginas, relatava e mostrava a violência praticada no local, que aumentaria a partir de então por todo o país. Merlino contou sobre os jovens que chegavam de todas as partes e que tomaram de surpresa a pacata Ibiúna, que ficou sem comida. Os homens do Dops aportaram na quinta-feira, dia 10, ao mesmo tempo em que os estudantes também continuavam a desembarcar. O jornalista preocupou-se em nomear cada agente da repressão envolvido e em denunciar a prisão dos líderes estudantis, como Vladimir Palmeira, Luís Travassos, José Dirceu e Franklin Martins, e do seu amigo dos tempos do Amanhã, José Roberto Arantes. No pátio do presídio Tiradentes, o orgulho (sarcástico) dos investigadores do Dops pelo sucesso da 'colheita de tantos subversivos' foi registrado pelo jornal. Solto, Merlino fez das páginas da Folha da Tarde testemunhas de tudo que viu e uma longa análise do movimento estudantil no pós-1964."[247]


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UM TRISTE CONGRESSO

Durante três dias o repórter Antonio Mello viveu a mesma vida dos estudantes que participaram do Congresso da UNE: andou debaixo de chuva, comeu muito pouco, dormiu menos ainda. Acabou também preso, como eles, numa cela úmida do presídio Tiradentes.

                                                                                                                

   Tiros de revolver e metralhadora, o fim do congresso

   Levei o copo de café preto e cheio de pó à boca, pela segunda vez. Meu gesto foi interrompido por tiros de revolveres e rajadas de metralhadoras. Vi alguns estudantes correndo e caindo na lama grossa do chão. Não vi quem atirava. Olhei para todos os lados. Pensei: "Será que a Polícia chegou e está encontrando alguma reação por parte dos estudantes que estão lá na frente?"
   De repente, de todos os lados, começaram a surgir soldados com armas nas mãos, disparando sobre nossas cabeças e gritando palavras que ninguém entendia. Um estudante tentou saltar a cerca, um soldado fez fogo. A bala deve ter passado bem perto, o rapaz voltou de mãos na nuca, meio trêmulo. As meninas que cozinhavam para nós na cocheira improvisada em cozinha, começaram a correr.
   Um soldado apontou-me o revolver e gritou:
   - Corre, seu vagabundo, se quer levar uma bala.
   Um pouco nervoso levei o copo à boca. Sabia que, devido à descoberta do local onde se realizava o Congresso da UNE, até comermos de novo iria levar horas.
   - Se você não correr eu mato - gritou de novo o soldado.
   Vi que não dava para correr devido à lama intensa que se acumulara na fazenda nos últimos três dias (não parou de chover o tempo todo). Levantei as mãos, cruzei-as contra a nuca. Juntei-me a dois outros jornalistas que, como eu, cobriam o XXX Congresso Nacional da UNE que não chegou a ser instalado. Juntos caminhamos até o plenário - um barracão improvisado para este fim. Ele estava coberto por uma lona verde, com vários galhos de árvores sobre ele.  O soldado queria nos forçar a sentar na lama. Alguns dos congressistas, menos de dez, corriam em direção a uma serra próxima. Dois soldados acionaram suas metralhadoras e eles desistiram da fuga. Vieram se juntar a nós.
   - Todo mundo de mão na cabeça, coluna por um para passar naquela porteira e ser revistado. Atirem suas bagagens fora - fala um sargento.
   - Anda, seus baderneiros - grita outro soldado.
   - Rápido, seus moleques; não tem moleza.
   - Anda, anda, ou leva bala pra matar, seus cachorros.
   Os soldados falavam quase ao mesmo tempo, tentando amedrontar os estudantes. As armas sempre apontadas aos nossos corpos, algumas delas engatilhadas, causavam-nos um pouco de medo.
  
O que mais me surpreendeu foi que não houve pânico. O moral estava elevado de forma surpreendente.  Apenas duas meninas desmaiaram de medo. Os demais cantavam, assobiavam ou se mantinham em silêncio.
   O sofrimento passado nos dias anteriores talvez os tivesse preparado para reagir daquela forma. Durante todos os dias que estivemos na fazenda Murundum, passamos por diversas privações. O quebra-jejum, em geral, se resumia a um copo de café. O almoço era meia concha de feijão, duas rodelas de batata. O jantar, um prato de sopa.
   Essas dificuldades começaram desde os últimos 20 dias que antecederam o congresso que não houve. Grande número de delegados vieram do Norte do país. Muitos viajaram de pau de arara, ônibus e trem para poderem chegar a São Paulo. Dezenas dormiram no meio do mato sem comer coisa alguma, levando chuva seguidamente.

Desde o seu começo um congresso de frio, fome e sono

   Uma semana antes de serem transportados os últimos delegados para a fazenda, os que se encontravam lá, já passavam dificuldades com refeições reduzidas, frio e sem ter onde dormir.
   Eu fui para lá na quinta-feira, com mais quatro outros colegas de imprensa, fui apanhado em frente ao restaurante Paulino, na avenida Rebouças. Naquele dia, quase  às 13 horas, dois Volkswagens se aproximaram e estacionaram junto a nós. O rapaz que dirigia um deles indagou:
   - Onde fica o Hospital das Clínicas?
   - Em Pirituba.
   Aquela era a senha combinada para identificar que estávamos credenciados para o Congresso Nacional da UNE, como jornalistas. Nas imediações da Cidade Universitária, numa rua residencial, tivemos nossos olhos vendados para não identificarmos o local do Congresso, após sua realização. Faltavam 5 minutos para as treze horas.
   Depois de rodarmos muito tempo, paramos. Demoramos cerca de dez minutos no interior dos carros. Depois, tiraram nossas vendas. Estávamos no campo, além de nós haviam mais umas dez outras pessoas. Subimos num caminhão e fomos conduzidos, durante cerca de uma hora, até o local onde se realizaria o Congresso. Caía uma garoa continua e o velho caminhão derrapava no lamaçal.
   - Dirceu, venha até aqui – grita o delegado Buonchristiano.
   O presidente da UEE estava à minha frente. Usava capa creme, a barba por fazer. Tinha o semblante abatido. Na véspera, tivera uma crise muito forte de asma, passando vários instantes sem poder respirar. Ouvi quando o coronel que comandou a operação indagou, em tom de afirmação, se ele estava organizando um foco de guerrilheiros, ao  que Zé Dirceu respondeu ser uma reunião de estudantes. Algemado, seguiu entre dois investigadores. Só fomos vê-lo de novo a quase oito quilômetros de distância dali, dentro de uma perua do DOPS.
   Depois dos quarenta minutos de derrapagens, balanços dentro do caminhão, chegamos ao local onde estava armada uma tenda. Era ali onde seria realizado o Congresso. A garoa continuava. De uma cocheira vinha o cheiro de comida. Entramos imediatamente na fila para receber nossa refeição. Ainda não tínhamos comido nada. Mesmo assim só nos coube meia concha de feijão e duas rodelas de batata. A fome parecia ter aumentado. Só voltamos a comer de novo à meia-noite: metade de um prato de sopa e nada mais

Lama, desmaios, é o longo caminho  a Ibiúna

   - Coluna por um e todo mundo andando.
   Os 720  passamos a caminhar a passo rápido.
   Era numa casa de dois compartimentos. No quarto onde passei a noite não tinha mais que 30 metros quadrados. Mas havia nele mais de cem pessoas, tentando dormir todos sentados. Cada vez chegava mais gente, a situação ia se tornando cada vez mais difícil. Só lá pelas 3h30 da manhã é que consegui adormecer. Passados 30 minutos fomos despertados, havia uma outra turma para dormir. Saímos. O frio era tão intenso que nossos lábios rachavam. Fomos até a cocheira onde fora improvisada a cozinha, lá nos serviram um pouco de café.
   - Um médico, um médico. Uma menina caiu lá na frente. Parece que está muito mal.
   Um sextanista de medicina saiu da fila para atender o caso. Realmente a garota não estava bem. Devido à pouca alimentação, ela perdera os sentidos. Junto a mim passou outra garota carregada por dois estudantes. Era paraplégica, tinha dificuldades de caminhar. A moça que perdera os sentidos foi conduzida para uma maca improvisada pelos estudantes e quatro deles passaram a transportá-la. Depois, conseguiram uma carroça, para levá-la.

Na plenária de preparação, muita discussão

   Toda sexta-feira foi perdida no plenário com discussões sobre credenciais. Só com a delegação da Bahia, foram perdidas mais de três horas. A de Minas Gerais levou outro tanto de tempo. O pior é que os debates entraram pela noite. A abertura do Congresso estava marcada para o dia seguinte, sábado às 8h30. Mas a Polícia chegou uma hora antes, impedindo que se iniciasse.
   Durante a plenária de preparação havida sexta-feira, tanto Travassos quanto José Dirceu viram que a situação quanto às eleições não estava definida. Ambos se preocupavam com os delegados que ainda não haviam chegado e os que não tinham ainda se decidido em quem votar. Os conchavos se intensificavam de todas as partes. A delegação do Ceará não me pareceu que ia ficar com o José Dirceu. A maioria, talvez se abstivesse em votar. O mesmo acontecia com pelo menos dez delegados da Guanabara e com os quatro do Rio Grande do Norte. Entre o pessoal de Minas Gerais a situação parecia a mesma.
   Nos delegados vacil
antes estava a esperança das duas facções. Por isso eles queriam que outros que ainda não haviam chegado também viessem. As discussões se acirraram, o clima ficou tenso e o 30º Congresso prometia muitas brigas. As críticas, em grande número, eram feitas em termos pessoais. Às vezes, causava-nos surpresa a reação do plenário. Se não fosse a Polícia chegar, o Congresso talvez só terminasse hoje ou amanhã à noite, após muita confusão.
   No sábado, levantei às 6h30. Tinha ido dormir às quatro. Entrei na fila do café e aí chegou a Polícia.
   Agora, na fila de presos pensava sobre o que podia acontecer. A caminhada era bastante grande, não sabíamos se iríamos para São Paulo, para Sorocaba ou para outro local. Caminhava atrás do Luís Travassos que ainda não havia sido reconhecido pela Polícia. Acendi um cigarro, tínhamos tido ordens para isso, e comecei a conversar. Um soldado, que é da Força Pública da Capital, chamou-me ríspido:
   - Cabeludo, vem cá.
   Saí da fila e fui até ele. O soldado retirou o cassetete. Naquela hora pensei que ia começar a apanhar. Fiquei com medo, pois outro soldado também se aproximou, cassetete em riste, mão no revólver que levava na cinta. O primeiro falou-me:
   - Onde você pensa que está? Na casa da sua mãe, pra ficar batendo caixa e fumando?
   Respondi-lhe que indagasse ao coronel, pois fora ele que nos dera a licença de fumar e conversar. Empurrando-me o soldado me fez retornar à fila.
   Na altura do oitavo ou nono quilômetro, haviam ônibus e caminhões estacionados, além de algumas peruas e jipes da Polícia. Os ônibus eram de empresas particulares. As moças foram transportadas para esses veículos e nós continuamos nossa caminhada. Quando passávamos junto aos coletivos trocávamos brincadeiras que faziam todos rir. A maioria dos ônibus traziam placas de “Turismo”. Isso foi motivo para muitas piadas.
   Continuamos a marcha durante três horas. Nela os soldados conversavam conosco. Um disse:
  - Olha pessoal, nós não temos raiva de vocês. Sabe, até gostamos de vocês. Inclusive eu sou estudante. Estou aqui porque recebo ordens e se não cumpro vou pra cadeia.
   Outro reclamava contra o local que havia escolhido para o congresso. Dizia que “era muito escondido. De outras vezes vocês podiam escolher um lugarzinho melhor. Não precisa ser no meio do mato”
   Um estudante respondeu que o próximo Congresso vai ser realizado no “Othon Palace”.

Guerra psicológica

   O momento de maior apreensão foi quando chegamos a uma clareira onde esperamos transportes requisitados pela polícia para seguirmos até Ibiúna. Sentados na grama molhada, alguns dormiam. Um cabo foi passando de soldado a soldado, eles faziam um círculo em torno de nós. O cabo dizia qualquer coisa aos soldados e estes tiravam seus cassetetes e ficavam balançando-os em nossa direção. Um sargento começou a travar e destravar sua metralhadora. Longe, ouvíamos a voz de alguém que mandava em posição de sentido, levar os fuzis aos ombros e marchar em nossa direção. Alguns pensaram em fuzilamento. Outros acreditavam apenas ser espancados. A maioria tinha  certeza ser apenas uma pequena guerra de nervos. E era isso mesmo.
   Em caminhões e ônibus seguimos para Ibiúna. No coletivo em que eu estava, haviam mais 61 pessoas espremidas umas contra as outras. O soldado na frente queria colocar ainda mais dez estudantes. Era impossível caber tanta gente. Depois de nos darem vários empurrões, desistiram. Não dava mais ninguém, mesmo.
   Ao chegarmos em Ibiúna – fomos os últimos – muita gente se encontrava em torno dos veículos. Alguns chegaram mais próximos, se oferecendo para trazer água e comida. Uma caneca d'água veio para os 62 que estavam no meu ônibus, deu apenas para molharmos os lábios. Depois mandaram um pão, dos grandes. Pedaços iguais foram distribuídos para todos nós.
   Por volta das 16 horas saímos de Ibiúna. Muitas pessoas nos acenavam e desejavam “boa sorte”.

Em São Paulo, é o frio da cela da Penitenciária

   Chegamos em São Paulo por volta das 18 horas. Com sirenas abertas as peruas da Polícia formavam verdadeiro “corso”. Fomos conduzidos diretamente para a penitenciária Tiradentes. Vários jornalistas aguardavam nossa chegada. Havia um pequeno aglomerado em frente à Penitenciária, o trânsito foi desviado. Os investigadores do DOPS e militares da Força Pública se mostravam muito orgulhosos.
   - Nunca prendemos tantos subversivos juntos. É, foi uma boa colheita.
   Do pátio em que ficamos, após contados, seguimos para as celas. Investigadores do DOPS e soldados da Força Pública nos acompanhavam, cassetetes em riste. Passamos pelas celas onde os outros já estavam. Ficamos na última.
   O chão era de cimento, não havia camas, ou cobertores. Da latrina exalava um odor insuportável. Não havia pia, só uma torneira junto a latrina. Lá tínhamos que tomar banho e retirar água para bebermos. Mas, nem aí, o nosso moral caiu. Éramos 62 dentro de uma cela de, aproximadamente, 50 metros quadrados. Não podíamos deitar. Ficamos todos sentados, com as costas apoiadas aos joelhos dos colegas que se encontravam imediatamente atrás.
   Discutimos nossa situação, formando uma pequena assembléia. Formamos comissões de alimentação, dormida e cigarros. Os mantimentos que haviam sido levados pelos congressistas foram divididos em partes iguais entre todos que estavam na mesma cela. O mesmo aconteceu com os cigarros. Comi um pedaço de chocolate que não tinha mais de um centímetro, dez caroços de amendoim, um pedaço de doce do tamanho do chocolate. O pedaço de queijo também era igual aos outros. Foi o nosso jantar, não dava 100 gramas no total.
   O frio era intenso. Uma corrente de ar se formava da grade da porta à grade da janela. Forramos o chão com nossos cobertores pois não havia suficiente para todos. Sentados, como na fazenda em Ibiúna, tentamos dormir. Alguns o conseguiram. Fiquei conversando com um companheiro da “Manchete” sobre nossa situação. Mesmo sendo jornalistas, estávamos trancafiados em cela destinada a condenados de justiça. Resolvemos, mesmo sendo do nosso direito prisão especial, não pedi-la e ficar até o fim, aguardar os acontecimentos.
   Quanto mais o tempo passava, o frio ia aumentando. Meus dentes batiam contra os outros pois eu não conseguia controlar os músculos dos maxilares. O chão mesmo forrado, era mesmo que gêlo. No corredor, o carcereiro, um homem moreno, japona azul, bigode espesso, passeava.
   Por volta da meia noite abriu a cela e gritou com voz grossa:
   - Rápido, todo mundo em fila, coluna por um e me segue.
   Perguntei, se era preciso pôr as mãos na nuca. Ele  ficou bravo, falou muitos palavrões e mandou que seguíssemos adiante.
   Passamos por uma porta estreita para outra ala do presídio. Outros jornalistas estavam sentados em bancos na sala. Fizeram-se sinal de que tudo estava razoável. Dei informações pessoais para preencher o documento de triagem. Fui levado até os outros companheiros de imprensa. Um deles abriu uma lata de leite condensado, devoramos todo seu conteúdo em questão de minutos. Isso serviu de diversão para os investigadores. Riam da nossa fome, do nosso frio. Cerca de dez minutos depois, formando uma fila , saímos do presídio, entramos num ônibus verde, só jornalistas e policiais, e fomos recambiados para o DOPS.
   Lá encontramos Vladimir Palmeira, José Dirceu e Antonio Ribas, este presidente da entidade dos secundaristas que fora libertado três dias antes de ser preso de novo. Vladimir tremia de frio. Os olhos estavam injetados de sangue e ele tremia de frio. Sua respiração irregular denunciava que ele devia ter sofrido outro ataque de asma.
   Não demoramos muito naquela saleta. Dela fomos levados ao gabinete do delegado Dandréa. Primeiro duas companheiras foram depor. Estavam calmas como todos nós. A fome que sentíamos aumentava minuto a minuto, como o sono. Fui depor junto com colegas da “Última Hora” e da “Veja”.
   Após o depoimento fomos libertados. Saímos do DOPS a passos calmos. Lembrávamos os companheiros do mesmo cárcere que estavam no presídio enfrentando a fome, o frio e, como nós, sujos de lama.
   - Precisamos avisar aos outros estudantes para que levem agasalhos e alguma coisa de comer para que a turma não passe mais fome do que a que têm passado – comentei com o colega da “Veja”. Um táxi parou a um sinal que fizemos. Fomos até um restaurante onde matamos a fome de um dia inteiro sem comer.
   Enquanto seguia para casa lembrava que teria uma cama com colchão e um cobertor, ao invés do chão frio e da umidade da penitenciária Tiradentes onde ficaram mais de 700 estudantes.
 

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QUEM É ELA?
 

   Que é a União Nacional dos Estudantes?
   Se os delegados do DOPS estiverem com a razão, a UNE não mais existe. Ela é José Dirceu, ela é Vladimir Palmeira, ela é Luiz Travassos: ela está presa no DOPS ou nas celas úmidas do presídio Tiradentes. Para os policiais a UNE se resume nestas lideranças (ou na “minoria de agitadores”, como pregam os discursos oficiais). São estes líderes os responsáveis pelas grandes passeatas, pelas grandes assembléias, pelas lutas dentro das escolas. São eles os “agitadores”. O resto, na melhor das hipóteses, são os “inocentes úteis”.
   Se os policiais estiverem com a razão não vai haver mais problemas para o governo: acabou a “agitação”. Estão no DOPS e no presídio Tiradentes 720 líderes estudantis de todo o país e, pelo menos, os principais, devem ficar na cadeia por mais tempo.
   Mas será que os policiais estão com a razão?
   Na terça-feira, quando os delegados eleitos em todos os Estados já estavam chegando em Ibiúna, três mil estudantes gritavam nas ruas de São Paulo: A UNE somos nós. Foi uma passeata mal organizada. As lideranças estavam mais preocupadas com a preparação do Congresso do que com o protesto nas ruas. A “segurança” já estava em Ibiúna, ou então no CRUSP esperando uma invasão do CCC. Mas houve discursos, houve resposta à repressão e os estudantes acabaram conseguindo o que queriam: aplausos do povo. E gritavam: A UNE somos nós.
  
Assim mesmo esta é apenas uma parte do problema, é apenas uma  manifestação de rua. E se a UNE é um conjunto de estudantes não é aí, nestas manifestações, que ela começa.
   A União Nacional dos Estudantes começa nas salas de aula com os problemas que os estudantes enfrentam numa Universidade em crise. Ali eles começam a brigar (ou a fazer “agitação”, como querem os homens da Polícia). Encontram uma Universidade cheia de falhas, sem verbas, sem vagas, sem professores. Sabem que o governo quer mudar esta Universidade para uma outra que seja paga e que atenda aos interesses do “desenvolvimento nacional”, ou seja, que forme técnicos em grande quantidade para as indústrias.
   É aí que a UNE começa a existir, denunciando os planos de reforma universitária feitos em conjunto com técnicos americanos (MEC-USAID), e explorando cada aspecto negativo da política educacional do governo. Começa a agir, também, organizando os estudantes e controlando os grêmios das faculdades. Daí para as manifestações de rua é só um passo: basta apenas que surjam as oportunidades. E estas oportunidades o governo está sempre dando com a repressão aos estudantes, ou com a inabilidade do seu ministro da Educação.
   E tem mais: com o aumento da crise na Universidade as manifestações começam a surgir dentro dela. Escolas são tomadas pelos estudantes que exigem participação paritária na direção. E a UNE está aí nestas brigas. Seus diretórios falam de Universidade Crítica, de Universidade Democrática, de Universidade Popular, ou, simplesmente, de Reestruturação, conforme suas posições políticas (a diretoria da UNE não tem unidade política). Os seus diretores estão nas ocupações de faculdades, nas lutas por mais vagas, por mais verbas, nas manifestações políticas. Para os homens da Polícia toda esta movimentação acontece por causa deles. São elas que as provocam, que “comandam a agitação”.
   Mas será que os policiais estão com a razão?
   José Dirceu , por exemplo, presidente da UEE de São Paulo, pode dar razões à Polícia. Os policiais que fazem com que os estudantes se manifestem vão acabar?
Enquanto eles não acabarem os policiais podem ficar certos de uma coisa: a UNE não vai deixar de existir.
No dia seguinte da prisão dos estudantes que participavam do Congresso, da prisão da “minoria de agitadores”, duas mil pessoas se reuniram numa assembléia na Cidade Universitária. Foi ontem, num domingo, num local onde só se pode ir de carro, numa época de pouca freqüência às aulas. Mas lá os estudantes já estavam prometendo reestruturar a UNE, formar uma nova diretoria. Lá já estavam aparecendo novos líderes, novos Dirceus, novos Palmeiras.
   E lá já se planejava uma passeata para esta semana.
   Depois das passeatas virão as lutas dentro das escolas. Podem começar por causa de um mau professor, de um restaurante ruim, de um currículo inadequado. Começarão dentro das salas de aula e a UNE vai estar lá. É por isso que os estudantes gritavam na terça-feira “A UNE SOMOS NÓS” e dizem que a União Nacional dos Estudantes não vai acabar.

Eduardo da Rocha e Silva


   O Movimento Universidade Crítica, formado por universitários ligados a Edson Soares (ex-vice-presidente da UNE) lançou ontem um manifesto dirigido "A todos os estudantes".

   - "A repressão policial ao Congresso da UNE, interrompido com a prisão de todos os delegados representantes das diversas faculdades, exige dos universitários e de todos os combatentes contra a ditadura uma resposta à altura. Para isso é preciso medir onde estavam os erros, quais os fatores que precisam ser vencidos para permitir um novo avanço da luta. A importância que a reação dá à UNE é sinal de que a UNE tem sobre os ombros uma responsabilidade que não permite mais improvisações e espontaneismo. "

A invasão do Congresso

   "Era um dos maiores Congressos da história da União Nacional dos Estudantes. Era um Congresso representativo não apenas pelo grande número de delegados, mas também pela forma como tinha sido conduzido: intensa participação das bases, delegados eleitos em todas as principais faculdades do país, realização vitoriosa dos Congressos regionais preparatórios. Era um Congresso que em teses fundamentais a respeito da participação dos estudantes na luta dos trabalhadores da cidade e do campo eram debatidas amplamente. Por tudo isto era um Congresso que a ditadura temia e precisava destruir. Na manhã de sábado passado as metralhadoras da ditadura burguesa-latifundiária tomaram de assalto o sítio de Ibiúna em que mais de 700 estudantes realizavam a fase final do 30º Congresso da UNE. De imediato a reação entrou em plena euforia, desde o mais boçal tira do DOPS até os sofisticados generais da Escola Superior de Guerra, sem esquecer os 'liberais' da ARENA e o demagogo Abreu Sodré. Eles tinham uma razão para alegrar-se: a UNE é mais do que um espectro a ameaçar os privilegiados. Integrando-se na luta dos trabalhadores, ela cumpre um papel importante hoje na revolução brasileira. Mas essa alegria é curta. Eles estão começando um erro muito comum naqueles que desconhecem o processo histórico: pensam que sua vitória parcial e momentânea é definitiva. Eles pensaram o mesmo em 64. Eles descobrirão o erro mais depressa do que poderiam sonhar."

As causas da derrota parcial

   “De 64 para cá o movimento estudantil vem ganhando cada vez mais conseqüência. Com a repressão sistemática os estudantes foram obrigados pela necessidade a aprimorar continuamente suas formas de luta. Por isso inclusive este ano uma expressão como “esquema de segurança” entrou até no linguajar comum não só de milhares de estudantes como até da imprensa burguesa. Mas, à medida em que aprimoramos nossos métodos de luta, a ditadura burguesa-latifundiária também aprimora os seus, através de um contínuo estudo de nossas formas de luta e da atividade dos 'experts' norte-americanos, gendarmes da reação mundial”.

   “Os grandes erros de segurança cometidos na realização deste Congresso revelam como o movimento estudantil ainda está em atraso. Necessitamos de abandonar as formas de luta que se caracterizam pelo amadorismo na maneira de enfrentar as questões organizatórias. O movimento estudantil – como toda a oposição consequente a este regime – é um movimento de massa que enfrenta a repressão sistemática: por isso as atividades clandestinas e semi-clandestinas têm que ser utilizadas seriamente desde as bases até suas direções. Isso não quer dizer separar a segurança das questões políticas; a segurança e todas as questões organizatórias são questões políticas. Mas isso não significa que 'podemos confiar na massa' e que não precisamos cuidar da organização. Pelo contrário: a luta exige que enfrentemos com tanto afinco a questão dos meios – a organização – quanto a questão dos fins – os objetivos políticos. Desprezar a segurança, a auto-defesa contra a repressão, é não enfrentar a ditadura, é ficar no mero protesto pequeno-burguês”

   “Nesse Congresso a segurança falhou desde a questão de determinar seus objetivos até verificar os meios para um plano de fuga que ao menos diminuísse a ação dos policiais. Segurança não significa apenas escolher um lugar escondido mas também prever a solução dos problemas de transporte, pontos, alimentação, etc. Enfim, a soma de tantos êrros (pequenos e grandes) permitiu à reação essa vitória parcial. Mas a guerra é feita de mil batalhas e mil batalhas ainda se travarão. Se soubermos aprender desta derrota, com a queda de nossos companheiros, transformaremos a derrota em começo de vitória, em novo avanço, no início de uma nova etapa em nossa caminhada”.

O que fazer: greve

   “Os burgueses estão sorrindo. Pensam que a UNE foi esmagada, esquecem-se que a UNE SOMOS NÓS, milhares e milhares de universitários de todas as escolas do país. Em todas as salas de aula, em todas escolas,em todas as cidades, formaremos Comitês de Defesa da UNE, para lutar pela libertação dos colegas presos pela conclusão do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, pelo avanço geral da organização e da luta. Ao mesmo tempo (...) conclamamos os estudantes à greve de protesto contra a prisão dos nossos colegas congressistas, pela libertação de todos e realização do Congresso. Essa greve deve ser tirada onde [for] possível. Ao lado disso, todas as outras formas de luta devem ser usadas – panfletagem, pichamentos, comícios-relâmpagos, ocupação de escolas, etc. Apelamos ainda para a organização de Comitês de Solidariedade à UNE, com a participação de intelectuais, artistas, secundaristas, professores, profissionais liberais, etc. À classe operária, que dá sentido à nossa luta, nós nos dirigiremos reforçando os laços que se reforçarão cada vez mais o movimento que derrubará o regime opressor. Que as nossas ações em todo o país mostrem a verdadeira força da UNE e preparem um novo avanço”.

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UM DEFUNTO QUE NÃO MORREU

A UNE é um defunto que não morre. Em 1964 o governo disse que ela não mais existia: estava na ilegalidade, tinha virado ex-UNE. Mas um ano depois ela estava de volta com o presidente e diretores eleitos. Agora dizem que ela morreu de novo mas os estudantes falam: A UNE somos nós.

 


   “Em 1964, o governo acendeu as velas,contratou as carpideiras e preparou o funeral da UNE. O velório teve um único defeito: o defunto recusou-se a morrer. Nos tanques de Castelo e Costa e Silva estava todo o roteiro do enterro: prisão das lideranças estudantis, cremação da sede da UNE pelos policiais do DOPS, substituição da entidade por marionetes do novo governo. O enterro deveria ser nacional; da UNE não deveriam ficar vestígios em todo o país. O aparato funeral foi tão assustador que a UNE ficou paralisada durante meses. Perdeu completamente o controle do seu imenso organismo, que na época de Jango Goulart havia se estendido por todo o país e vivia até com dinheiro do governo.”

   Esse trecho é de uma publicação da UEE de São Paulo, deste ano, e concentra a história da União Nacional dos Estudantes. Desde sua fundação, em 1937, por Getúlio Vargas, até 1964 ela foi entidade financiada pelo governo e ligada a ele. Sua representatividade como entidade dos estudantes até 64 nunca foi grande. O golpe que sofreu com a extinção, deixou a UNE desarticulada por alguns meses, até que em 1965 foi organizado, já na clandestinidade, um congresso nacional dos estudantes, marcado para Belo Horizonte. A repressão foi violenta. Para conseguir terminar o congresso,alguns estudantes foram obrigados a se vestirem de padres. O congresso se realizava no convento dos Franciscanos. Ao mesmo tempo que lutava para se manter, por causa da ilegalidade, a UNE tinha que lutar contra sua própria tradição de entidade de cúpula. E na batalha que travou contra a Lei Suplicy, que extinguia todas as entidades do movimento estudantil, e colocava outras em seu lugar, saiu vitoriosa. O Diretório Nacional dos Estudantes, que deveria ser o substituto da UNE, ficou na ficção. Parecia que a ilegalidade tinha dado muito mais força à UNE, ela capitalizava todas as lutas reivindicatórias dos estudantes. Os congressos de cada ano eram a síntese das lutas estudantis e a definição das lutas que viriam.

   Esses congressos sempre tiveram na dificuldade de sua realização a característica comum. Essa dificuldade culminou com o Congresso deste ano, quando ele nem chegou a ser realizado. O que causou espanto à própria Policia, foi a facilidade com que os estudantes se deixaram prender, e as imprudências que cometeram. Apesar de no Conselho Nacional dos Estudantes, realizado em maio na Bahia, ter ficado aprovado, que por questões de segurança o congresso seria preparado por uma executiva nacional, especialmente formada para esse fim, no do ano passado as precauções parecem ter sido maiores.

   Quando a Polícia foi ao convento dos beneditinos, em Vinhedo, depois que o congresso do ano passado já tinha acabado, encontrou entre outros papéis um comunicado da comissão de segurança, que dizia o seguinte:“1) Quando pelo pátio, não ultrapassar os limites da propriedade. 2) As luzes externas devem ser apagadas às 22 horas. 3) A partir das 22 horas as luzes internas ficarão sob o controle da comissão. 4) Os participantes deverão deixar os locais externos antes do apagar das luzes. 5) A partir do encerramento dos trabalhos os participantes devem procurar não falar em voz alta. 6) O uso de bebida alcoólica fica totalmente proibido. 7) A comissão de segurança requisitará e determinará os colegas que farão rondas noturnas e diurnas. 8) As saídas do local estão terminantemente proibidas. Os casos excepcionais serão examinados e discutidos pela comissão. 9) Após o término do congresso a retirada dos colegas seguirá a mesma ordem de entrada. 10) As turmas serão inflexivelmente determinadas pela comissão. 11) Aconselha-se a todos a não identificação. Quando se dirigir a outra pessoa use a determinação colega ou companheiro.

   Na cidade de Vinhedo ninguém ficou sabendo de nada. O próprio delegado de Policia levou o maior susto quando soube que na sua cidade tinha se realizado o congresso da UNE. E o DOPS tinha entre estudantes um informante, mas o esquema de segurança impediu que ele pudesse passar qualquer informação antes do congresso acabar.

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LUIZ EDUARDO MERLINO NO 30º CONGRESSO DA UNE, COMO JORNALISTA E COMO MILITANTE

Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (São Paulo, Boitempo Editorial, 2004)

   Luís Eduardo da Rocha Merlino não estava no congresso proibido da UNE só como jornalista. Ele trilhou um caminho que espelhou uma das opções dos anos que se iriam seguir. Merlino, ou Nicolau, era militante do POC. Nasceu em Santos, São Paulo, em 1948 e morreu aos 23 anos, na Oban, em 19/7/1971. Exerceu o jornalismo desde os 17 anos, quando, em 1966, fez parte da equipe de jornalistas que fundou o Jornal da Tarde. Esteve na experiência do Amanhã e transferiu-se para a Folha da Tarde também no seu início, permanecendo durante o curto período de tempo em que o jornal pôde ser de oposição. Em abril daquele ano, participou da manifestação diante do Tribunal Militar em São Paulo, quando jornalistas foram presos.

   Em dezembro de 1970, saiu do país em companhia de sua esposa, Angela Mendes de Almeida, para uma viagem de estudos e contatos na França, sobretudo, com a IV Internacional, da qual o POC se aproximaria. Voltou em maio de 1971, com passaporte legal, já que não pesava contra ele nenhuma acusação nos órgãos de repressão.

   Na noite do dia 20 de julho de 1971, sua mãe recebeu um telefonema de um delegado do Deops, em Santos, comunicando o assassinato do filho. Foi informada de que Merlino se teria jogado embaixo de um carro na BR-116, na altura da cidade de Jacupiranga. Na versão oficial, ele tentava fugir enquanto era levado para Porto Alegre para “entregar companheiros”. Na realidade, Merlino foi retirado de sua casa, em Santos, cinco dias antes, por pessoas que no início se diziam amigos e, minutos depois, instalaram o terror no local. Os policiais buscavam por sua companheira, Angela Mendes de Almeida, que ainda permanecia fora do país. Levado para a Oban, na rua Tutóia, for torturado por 24 horas e deixado em uma cela solitária. Seu estado de fraqueza agravou as fortes dores nas pernas, fruto do tempo de permanência no “pau-de-arara”. Sem cuidados médicos, mesmo depois da queixa de companheiros, Merlino sofreu de uma gangrena generalizada, vindo a falecer dia 19.

(...)

   A trajetória de Merlino expõe um momento posterior ao vivido ainda naquele anos de 1968. Seu percurso desenha o mais radical, o assassinato, e difere do de outros militantes do jornal, que também caíram a seguir.[pp. 248-249]

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