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Nicolau: um diário da motocicleta.

 Maria Regina Pilla

   Nicolau/Merlino era um sedutor. Cabelos e olhos negros. Adonirán Barbosa inspirava nele cantorias sem fim. Em São Paulo dirigia um fusca azul escuro. Naquele inverno parisiense de 1970 (ele e outros militantes brasileiros haviamos ido à França para entrar em contato com a IVª Internacional) , ele vestia um casaco longo, em tweed verde e branco.   Eu achava inédito esse casacão-último-grito-da-moda naquele militante rigoroso.  Mas, como ele tinha humor, considerei que a peça era parte de uma auto ironia. E não pensei mais no assunto.

   Noite fria de dezembro: íamos à manifestação contra a condenação à morte de um grupo de militantes anarquistas espanhóis, conhecida como “as execuções de Burgos”.  Naquela noite a polícia parisiense estrearia a nova moda repressiva das motocicletas.  Mas, num abrir e fechar de olhos a multidão descobriu como escapar do ataque veloz e barulhento dos CRS. As numerosas escadarias da praça mais próxima liquidaram com a modernidade policial.   Humilhadas, as motos debandaram e a rua retornou a seus ocupantes.  Nicolau parecia comandar um pelotão, e mesmo numa língua estrangeira, gritava ordem aos quatro cantos, voando no seu elegante casacão por entre degraus e muretas.

   Aquele ano de 1970, tempo do “Brasil ame-o ou deixe-o”, foi também o ano de mais um título mundial para o futebol nacional.  No clima de ôba-ôba da ditadura, seria natural que a seleção fizesse suas apresentações em outros gramados.  Com uma grande faixa “Brasil, campeão da tortura” lá fomos nós, meia dúzia de gatos pingados, prestar nossa homenagem aos companheiros seqüestrados pela ditadura.   “Pênalti, pênalti”.  O berro de Nicolau pegou a todos de surpresa. Não fora para isso nossa ida ao estádio francês.

   Passou o inverno, as estações foram mudando. “Um país que tem no ciclismo o seu esporte nacional...” A frase ficara pendurada na intenção. É que nosso amigo francês estava por perto.  Nicolau dizia o que pensava, mas nunca seria deselegante.

   O “país do ciclismo” ficou sendo o nosso por algum tempo. Para alguns, por décadas, para Nicolau foi seu endereço apenas durante aquele inverno europeu. No inverno brasileiro de 71 ele desapareceu numa cela da OBAN, como ocorria com muitos jovens militantes daquela época. O resto da história vocês conhecerão nesse site em sua memória, a memória da nossa geração, cujo crime foi querer um mundo mais justo e humano.

Janeiro 2006 

 

 

 

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