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Meu amigo Merlino
 

Joel Rufino dos Santos

          1972. Numa festa, pedi a um amigo comum notícias de Merlino. “Morreu”. Contou as circunstâncias. Não chorei, não xinguei: nada. Durante alguns dias me escondi atrás de racionalizações: a Luta, o Socialismo, a História. Tudo com letra maiúscula: abstrações. Até que uma noite, abro o armário para pegar uma camisa, tiro uma pólo azul-suave que não vestia há tempo. Caio no choro.

          Anos atrás (morávamos então na Alameda Santos), ele comprou para si aquela camisa. Meu amigo era bonito e naturalmente elegante, eu usei várias roupas dele, apesar da minha estatura menor. “Ela fica muito bem em você”, elogiei. Ele a tirou imediatamente e me estendeu: “Fica sendo sua”.  O gesto de dar o que era seu foi comum nele e, agora, diante daquele cabide eu compreendi, enfim, o que disse nosso amigo: “Morreu”.

         1973. Um torturador da Operação Bandeirante, Oberdan, cismou de falar comigo sobre Merlino. “Não morreu como vocês pensam. Foi para o Hospital passando mal. Telefonaram de lá para dizer que ou cortavam suas pernas ou morria. Fizemos uma votação. Ganhou deixar morrer. Eu era contra. Estou contando porque sei que vocês eram amigos. Não foi como pensam”. Essa é uma outra lembrança que tenho do meu amigo. Com o tempo (trinta e dois anos) todas vão sumindo. Talvez eu guarde essa por que, embora sinistra, nela me reconheço como seu amigo. Eu gostava muito dele e, penso, ele de mim.

         1969 ou 70. Eu o convidei para um fim de semana no Rio. Casa da minha irmã, Tomás Coelho, subúrbio da Central do Brasil. Chegamos de noite, fomos dormir. Dia seguinte, um domingo, o coro evangélico da família o acordou. Mais perto quero estar, meu Deus de ti... Ele veio para a sala, ficou parado na porta, ouvindo enternecido. Era sempre muito crítico com expressões religiosas. Materialista convicto e tranqüilo, como eu, não se tornaria em nenhuma situação um pedinte de qualquer divindade. Naquela manhã, porém, eu o vi comovido. Comentou qualquer coisa sobre a sinceridade da fé em pessoas humildes. Não se comovia com Deus, mas com a crença das pessoas em Deus.

          1967 ou 68. Fechado mais um número de Amanhã, um dos muitos jornais criados por Raimundo Rodrigues Pereira, saímos pela Alameda Santos, rindo e cantando. Pusemos uns latões de lixo na cabeça, rolamos outros pelo asfalto. Aparece uma patrulhinha. Nos rendem, agressivos. Exigem que devolvamos os latões aos seus lugares. Questão de honra. Pedem ajuda, daí a pouco estamos cercados por várias patrulhinhas. Merlino começa a negociar a nossa liberação, acende um cigarro. Um policial lhe arranca o cigarro com um tapa. Passam de acusadores a acusados. Agora, nós é que exigimos ir à delegacia prestar queixa de agressão. Situação absurda: quatro ou cinco caras desarmados acusando a polícia de agressão. Numa delegacia de Vila Mariana (talvez fosse a da Rua Tutóia, antes de hospedar a Operação Bandeirante), os policiais contavam em nos surrar. Um de nós consegue usar o telefone, viram que éramos jornalistas. O delegado nos obriga a passar a noite no corredor, mas decide nos liberar de manhã. De vez em quando o tira do cigarro passa por nós bufando. “Está bem”, concordou Merlino. “Mas só saímos daqui se você registrar a queixa de agressão. E como fomos presos na Alameda Santos, exigimos que nos deixem lá, no ponto em que nos prenderam”. O delegado usa outra vez o telefone, cumpre a exigência de Merlino.

          1970 ou 71. Merlino nos convidou (eu, Teresa, Nelson) para o Natal na casa da família, em Santos. A mãe, a tia, a irmã, o cachorrinho. A memória é caprichosa, vejo flashes que a saudade remonta. Não foram exatamente assim. O cachorrinho sempre no seu colo. A tia oferecendo bolos. Uns quadros de gosto comum. Nelson adormecido na cama de Merlino, que a mãe não desmanchava. O contraste com a minha família, grande, cantante, agitada.

         2005. Mantenho em frente à mesa onde todo dia sento para escrever um retrato do meu amigo. Presente de Angela. Está de perfil, bigodes negros, óculos sem aros. Lembra o Mastroiani de um dos seus filmes preferidos, Os companheiros. Mesmo assim dá pra ver os olhos amendoados, os lábios entre finos e carnudos, a orelha, o pescoço, a cabeça bem feitos. Eu o mantenho aqui para lhe perguntar: O que acha deste governo? E a agressão sionista? E o crime organizado? E a vida? E o socialismo? E o MST? E agora, Merlino? Com o tempo, meu amigo vai virando um compêndio, deixando de ser um morto. Já pensei em botar uma legenda nesta foto. Seria o do romance épico de Anna Seghers, sobre a luta dos comunistas alemães contra ascensão do nazismo. Se meus netos herdarem essa mesa, esse retrato, saberão que meu amigo, como o Tchê, como a Rosa Luxemburgo, não quis envelhecer. Os mortos permanecem jovens.

 

Maio 2005

 

 

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